Viver em Amor “O Mensageiro”

Klaus J. Joehle

 

Prefácio

Você está prestes a embarcar numa jornada que a maioria de nós só julgava possível naqueles momentos fugidios em que nos atrevemos a sonhar as esperanças aparentemente impossíveis.

Nos últimos 30 anos li todos os livros, passei horas sem conta a meditar, a visualizar, a aprender a viajar fora do meu corpo; mas sen-ti o tempo todo que alguma coisa me faltava. E ao fim de pouco tempo todos os livros me pareciam simples versões renovadas do mesmo material. Nada de novo, ou pelo menos parecia que não faziam nenhuma diferença real.

Por alturas de Novembro de 1955, depois de deixar de trabalhar e sem qualquer intenção de procurar trabalho, fui visitar um amigo que trabalhava então nas apostas desportivas. Estávamos a conversar sobre as apostas e sobre o dinheiro que ele não conseguia ganhar, quando um pensamento me ocorreu.

Olhei para o meu amigo e sugeri que talvez uma pessoa pudesse utilizar a sua mente subconsciente para ver o futuro e adivinhar quem ia ganhar o jogo. Ele pensou que eu não estava bom da cabeça e disse que não havia nenhum meio de predizer o futuro, dando-me 20 motivos para justificar essa impossibilidade. É bastante óbvio para mim que ele tem uma cabeça muito mais dura do que a minha. Mas quanto mais eu pensava naquilo, mais me agradava a ideia.

Quando cheguei a casa já tinha a coisa mais ou menos configurada na minha mente. Imaginei que tudo quanto precisava de fazer era conseguir um estado de espírito em que o consciente e o subconsciente se unissem e trabalhassem juntos, como um só, em vez de estarem separados. Parece simples, e era, embora tenha levado algum tempo a congeminar os pormenores e conceber um plano. Voltei à biblioteca e levantei mais uns poucos de livros. Andei às voltas com aquilo uma semana ou duas e experimentei várias coisas. De qualquer modo, aproveitei toda a informação que consegui encontrar e misturei tudo, um pedacinho daqui, um pedacinho dali. A conclusão a que cheguei foi que precisava de estar num estado de meditação profunda, ou num estado de espírito semelhante ao transe, e viajar então ao futuro para ver os resultados dos jogos.

Resultou, mas nunca me enchi de dinheiro. Fazia pequenas apostas e ganhava pequenas quantias de cada vez. À medida que o tempo passava ia tentando levar o meu amigo a fazer o mesmo, imaginando que deste modo podíamos comparar resultados e conseguir ainda melhor. Mas ele andava assustado e recusou ter alguma coisa a ver com aquilo. Insisti, mas não serviu de nada. Mesmo não sendo ele minimamente religioso, dizia sempre que talvez eu estivesse a infringir alguma lei cósmica e viesse a perder mais do que ganhava. Bom, o que acontece é que não existe tal lei no universo, mas parece que o Universo, ou Tudo O Que Existe, tem o seu plano próprio. Sem me aperceber de nada, era precisamente para isso que eu caminhava.

Foi assim que começou, mas não como terminou. A própria ciência está lentamente a descobrir que existe um poder invisível a que chamamos Amor. Durante séculos a palavra Amor tem sido usada para descrever sentimentos e emoções, mas nada se tem dito acerca desta incrível fonte de poder que é responsável pela manutenção de tudo o que nos rodeia. Imaginem só a vida que poderíamos criar se soubéssemos como aceder a esta fonte. Imaginem só a diferença que poderíamos fazer neste mundo. O facto é que esta fonte está dentro de todos nós; nascemos com ela. Durante séculos a informação tem sido transmitida apenas a meia dúzia, e é mesmo isso que eu quero dizer. Tentar ganhar a lotaria não tem nada a ver com o que você está prestes a descobrir, a não ser que foi a motivação que me levou a aquietar a mente o tempo suficiente para me ser mostrado algo incrível que tem estado escondido mesmo na nossa frente.

Às vezes pergunto a mim mesmo se o mundo estará preparado para esta informação. A única resposta que tenho é a dos muitos emails que tenho recebido e continuo a receber. Vêm de pessoas que se admiram de como é incrível esta informação e de como funciona tão fácil e rapidamente. Preocupei-me também se não poderia ser usada erradamente, ou duma forma negativa, pois parece que alguns o tentaram. Que isto seja uma advertência. A Energia de Amor, por assim dizer, é uma energia consciente e tem consciência do que andamos a tentar fazer. Arrisco dizer que é por isso que funciona tão bem.

A história que você vai ler é verdadeira, até ao limite da minha aptidão para a escrever, e sobre a informação que vai descobrir neste livro, que eu saiba jamais alguma coisa se escreveu. Embora o poder do Amor seja mencionado em muitos escritos, em parte alguma foi explicado como usar esta energia de Amor para criar a vida e o Amor que procuramos.

Se você está cansado de ler e reler versões renovadas da mesma matéria e está preparado para dar o passo seguinte, então continue a ler. Vai descobrir um segredo pouco conhecido sobre o Amor, que jamais alguém julgou possível. Se anda a ler montes de livros ou anda à procura de alguma coisa que o leve mais longe, então é esta a informação de que tem andado à procura. É isto o que todos nós temos andado a procurar.

Todo o meu Amor

Klaus Joehle

Nota controversa do Autor

Eis a minha opinião: aproveite o que lhe agradar e deixe o resto.

Durante toda a nossa estadia neste planeta, parece que encontrámos uma maneira de nos destruirmos a nós próprios. Vamos para a guerra e matamos gente aos milhares. Atacamos os que parecem mais fracos do que nós e apoderamo-nos do que eles têm. Matámos e vamos continuar a matar outros e a morrer por aquilo que desejamos. Metade do mundo parece estar razoavelmente em paz, enquanto a outra metade se enfurece na guerra. Até quando tentamos ajudar aqueles que não podem defender-se a si mesmos contra um agressor acabamos por ficar iguais a esse agressor que tentamos deter. Durante séculos ensinaram-nos que não temos poder para pôr termo a uma agressão senão lutando e matando. Tornou-se um círculo vicioso haver gente que tenta desesperadamente viver em paz só para um dia ser atacada por aquilo que possui. Andamos com medo do que outros nos possam fazer. Trancamos as portas, fechamos os carros, instalamos alarmes de segurança, e tudo isto para nada. Há uma outra maneira. Eis um exemplo:

As pessoas que viviam em minha casa antes de mim foram roubadas e assaltadas cinco vezes em sete anos. Cinco vezes foi a casa deles vandalizada e roubados os seus pertences. Quanto a mim, vivo aqui em paz há muito tempo, embora o meu vizinho não. Não tenho alarmes; as portas e as janelas nunca estão trancadas. Os meus veículos não estão fechados e a porta da minha garagem está sempre aberta, com todo o ferramental ali bem à vista. Mesmo quando saímos não fechamos nada, e quando voltamos ninguém tocou sequer numa folhinha de relva. Desde que mudei para aqui nunca vi sequer as chaves da casa. A maioria das pessoas dirá que isto é uma insensatez e que estamos a desafiar complicações. Normalmente eu concordaria, mas você não viu a informação neste livro em acção, nem do que ela é capaz.

Noutros tempos estava convencido, como muita gente, de que Deus simplesmente nos tinha colocado aqui e não nos dera poder para criar o céu na terra. Mas com o tempo percebi que isso não fazia sentido. Nessa altura não sabia onde estava o poder ou como chegar a ele.

Acreditar que Deus nos fez impotentes para criar o céu na terra, acreditar que somos parte de Deus e fomos deixados impotentes para deter aqueles que querem destruir tudo quanto lhes aparece pela frente – é absurdo e não pode ser verdade. A verdade é que nós temos poder para pôr termo a isto e que esse poder jaz dentro de nós à espera de ser activado. O poder de que estou a falar é o Amor, e não precisamos de magoar aqueles que nos querem prejudicar a fim de os impedir.

Não deixem que a palavra Amor, nem a maneira como tem sido empregada, vos iluda; foi precisamente assim que a esconderam de nós. Fico espantado como a palavra Amor tem sido trabalhada para fazer a montanha parecer um rato. A maior parte das pessoas concordará que o Amor é uma das forças mais poderosas do universo, mas fica-se por aí. Fomos ensinados, e de muitas formas ensinámos a nós mesmos, que o Amor é um sentimento e uma força inalcançável, mas isso não é verdade. Há muito mais a dizer sobre o Amor e o que podemos fazer com ele. A melhor maneira de ocultar uma coisa é fazê-la parecer como coisa pouca, coisa estúpida e insignificante. O universo e tudo o que nós vemos não é um sistema fechado nem é auto-suficiente. Precisa de uma fonte de energia exterior, e é a isso que chamamos Amor. Pense nisto: aquilo que você acredita que criou tudo isto, seja o que for, também nos criou a nós, e ao fazê-lo deu-nos também o poder de criar o céu na terra. Não faz sentido?

Muitas pessoas temem o que amanhã lhes poderá acontecer e a seus filhos. Não posso censurá-las, mas depois de ler este livro você vai concordar que a única coisa realmente assustadora é não ter esta informação e não poder dá-la aos seus filhos.

Aprendi a meditar, e toda a espécie de coisas maravilhosas vieram dos nossos cientistas espirituais do Oriente e do Tibet. O que sempre me fez confusão foi o facto de, ao cabo de 500 anos de meditação, os tibetanos terem de fugir do país e deixar o povo ser escravizado, torturado e morto. Não estou a tentar diminuí-los. Estou a dizer que qualquer coisa faltou no caminho deles. Qualquer coisa faltou, a eles e a todos nós, que poderia ao menos manter-nos em segurança. Se não conseguimos manter-nos e aos nossos filhos em segurança enquanto fazemos do mundo um lugar melhor para se viver, então há qualquer coisa que falta, há qualquer coisa de errado. Estamos todos à espera que Deus venha para pôr tudo em ordem, mas o facto é que ele deu-nos livre arbítrio e deu-nos o poder de o fazermos nós mesmos sem magoar nem prejudicar ninguém. Eu sei que isto é uma afirmação altissonante, mas a prova está aí, nos inúmeros emails que recebo de pessoas que testemunharam, como eu, este mesmo milagre.

Não sou religioso senão na medida em que acredito em algo maior e mais amoroso do que eu mesmo.

Quando era mais novo mandaram-me para a escola dominical, como a maioria de vós, mas achei que qualquer coisa faltava, qualquer coisa como isto: quando Jesus disse para oferecermos a outra face, algo ficou por dizer. Esse algo foi: envia-lhes Amor e enche-os de Amor, porque isso vai detê-los no seu caminho; e, claro, as instruções sobre como enviar Amor de uma maneira eficaz. Se oferecer a outra face funciona tão bem só por si, porquê, então, quando eles roubarem ou assaltarem a vossa casa, não lhes dar mais do que eles procuravam? Se isso funciona tão bem, por que estão as igrejas fechadas? O objectivo de oferecer a outra face era evitar a represália, mas falta aí uma informação: como trabalhar com o Amor e como activar esta fonte incrível de poder, não só para nossa própria protec-ção, mas também para transformar a própria pessoa que nos ameaça ou põe em risco e para vivermos, sem medo, a vida que pretende-mos.

Se estivéssemos num lugar onde não houvesse água à superfície e nunca tivéssemos visto uma máquina perfuradora, mesmo que todos concordássemos que havia água morreríamos de sede. Porque se não sabemos o que é uma máquina perfuradora ou como usá-la, a máquina simplesmente está lá, tal como o Amor dentro de nós. Se o Amor é a força mais poderosa que conhecemos e se podemos usá-la para mudar as nossas vidas, criar as coisas que queremos, felicidade, segurança, Amor, alegria, etc. – não serve para nada se não soubermos como usá-la ou onde encontrá-la.

Estaria receoso se estivesse a falar de outra coisa que não o Amor, mas o Amor tem uma consciência que lhe é própria e não prejudica ninguém. Você vai descobrir isso por si mesmo à medida que prosseguir na leitura, e não terá palavras para exprimir a sua surpresa.

A informação que eu dou neste livro, não a encontrará em mais nenhum lugar, mas isso vai mudar em pouco tempo. Quando escrevi este livro pela primeira vez coloquei-o numa página da web para ver se as pessoas se interessavam e para ver se era compreensível, pois certas coisas são difíceis de exprimir por palavras. A resposta foi esmagadora. As pessoas escreviam a dizer que era a peça que faltava e que estavam espantadas com os resultados. Agradeço todo o vosso apoio.

Se o leitor se considera a si mesmo o que alguns chamam um obreiro da luz, ou um terapeuta ou curador, ou se ao menos está a tentar tornar-se um deles, esta é a informação de que tem andado à procura. Esta é a informação que vai conduzi-lo ao passo seguinte.

As minhas desculpas aos Tibetanos se o exemplo que dei os ofende, mas é tempo de sabermos como libertar a energia de Amor de que este mundo tão desesperadamente necessita.

Isto é para os dois tibetanos que são dos poucos que sabem desta informação e a têm aplicado com afinco:

A ocasião chegou: de uma maneira ou doutra, é tempo de as pessoas terem conhecimento do poder amoroso que têm dentro de si e é tempo de o libertar.

É tempo de as pessoas poderem viver em paz e sem medo e de poderem criar a vida que desejam. É óptimo o que vocês conseguiram, viver durante muito tempo, não precisar de comer nem beber água, tornarem-se invisíveis a olho nu. Mas vocês esqueceram-se do que é a vida para aqueles que foram persuadidos de que não possuem força alguma e que vivem sob o jugo de outros. Podem ter tido as vossas razões, mas para mim e pelo que tenho visto por esse mundo fora, elas não eram suficientemente boas para que guardassem isto para vocês. É neste ponto que discordamos e continuaremos a discordar. Mas depois vocês souberam que isto estava para chegar. Eu vivo bem, vivo em segurança, mas é tempo de as outras pessoas também poderem viver assim.

Para aqueles que crêem num Deus, ele deu-vos o poder de criar o céu na terra, e se o usarem ele virá, ou talvez num segundo ele/ela já cá estará. Pensem nisto. Vocês fazem tudo pelos vossos filhos, ou dão-lhes a capacidade ou as aptidões para o fazerem eles mesmos? Se vão deixar esta informação perder-se porque veio de um zé-ninguém como eu em vez de vir de um alto sacerdote… bom, é convosco. Vocês possuem as aptidões e o direito conferidos por Deus para criar o mundo que Deus queria. Aproveitem o que for do vosso agrado e deixem o resto para alguém que o há-de apreciar. Seja como tiver de ser.

Para aqueles que me têm escrito e continuam a escrever, as minhas desculpas porque o mais provável é receberem apenas umas notas curtas como resposta; a correspondência é demasiada e o tempo escasso.

Toda a informação está neste livro: como a descobri, como trabalhar com ela, o que esperar, e algumas das minhas próprias experiências. É tudo quanto eu tenho para vos dar, além do meu Amor. Aproveitem a informação e ponham-na em prática. Daqui a dois anos, ao olharem para trás ficarão espantados com aquilo que conseguiram. Todos ficaremos. Na meia dúzia de páginas seguintes vou tentar responder a algumas das perguntas mais frequentes. Espero que isto possa ajudar.

Todo o meu Amor para vós na vossa jornada!

 

Introdução

Durante séculos certa informação sobre o Amor e a quantidade de poder que ele proporciona foi mantida oculta e em segredo. Mas isto está para mudar. Se você quiser criar a vida que tem sonhado continue a ler.

Com toda a franqueza a última coisa que eu desejaria fazer era tornar-me escritor, especialmente para escrever sobre o Amor. Se não fosse a quantidade de poder e a capacidade que o Amor me deu para criar a vida que eu desejava… nem sequer pensaria em tal coisa. Usando o Amor descobri que posso virtualmente criar de imediato tudo o que quero. Usando o Amor adquiri uma capacidade e um poder tão grande de criar o que desejo que, se não fosse Amor o que eu usava, a coisa seria quase assustadora. A minha vida tornou-se um conto de fadas e ultrapassa tudo o que alguma vez esperei que me fosse possível. Eu sei que isto parece uma declaração pomposa, mas é totalmente verdade. Até a minha companheira, que tinha um espírito aberto mas também céptico, não teve outro remédio senão acreditar, pois a Magia é coisa do dia a dia que está para além das palavras. A quantidade de poder pessoal que o Amor proporciona, não para controlar os outros mas para criar a nossa vida e as nossas experiências, é espantosa. E o que isto tem de belo é que no fim parece resultar sempre da melhor maneira para toda a gente. Afinal de contas, se a coisa não tivesse esta dimensão não teria sido mantida em segredo.

Trabalhar e criar com Amor é muito fácil, só tem de se lhe apanhar o jeito, mas é extremamente fácil de aprender. A lista do que se pode fazer com o Amor, ou talvez eu pudesse dizer a energia do Amor, é interminável. Podia dar-vos centenas de exemplos. Vão encontrar neste livro – Living on Love “The Messenger” - uma mão cheia de exemplos. O meu ditado favorito é: Aproveite o que lhe agradar e deixe o resto para alguém que possa apreciá-lo. A escolha é sua.
Todo o nosso Amor para si no caminho que trilhar e nas opções que tomar.

 

Capítulo Um

Era no princípio do Inverno. Normalmente faz muito frio nesta altura do ano, mas este ano estava quentinho, quase como no Verão. Era um dia muito enevoado e parecia que ia chover.

Eu estava em casa a tentar escrever este livro, mas o facto é que não conseguia imaginar como contar esta história. Não sou escritor e nunca escrevi nada antes. Durante horas tentei escrever, e embora tivesse feito alguns esboços grosseiros e umas notas de coisas que tinham acontecido, não conseguia passar das primeiras páginas. Não conseguia achar palavras para descrever o que tinha acontecido dois anos atrás e que mudara a minha vida para sempre. Finalmente desisti e resolvi descer à cidade para tratar de umas coisas.

Estacionei o carro num sítio onde sabia que o podia deixar toda a tarde sem pagar o estacionamento nem tirar nenhuma senha, e fui a pé aos diversos sítios aonde queria ir. Depois de ter dado as voltas todas, decidi parar e ir ver um amigo meu chamado Henry para o desafiar a ir comigo tomar qualquer coisa. Não é preciso muito para convencer Henry, e lá fomos até ao bar. Por lá ficámos durante horas, até que decidi que era tempo de ir para casa. Ao chegarmos à rua chovia fortemente, o que é pouco usual nesta época do ano… para não dizer que muito raramente chove desta maneira aqui em Calgary.

Sabia que ia ficar ensopado, e então corri rapidamente de um sítio abrigado para outro; não que isso tivesse ajudado, mas é uma daquelas coisas estranhas que nós fazemos mesmo que logicamente não tenham sentido. Já estava escuro, e com a chuva via-se com dificuldade. Abrigado debaixo duma pequena pala, tentava não me perder. Olhando em volta, percebi que estava numa estreita passadeira coberta de telhado, quase como a varanda duma casa. Um pequeno anúncio luminoso que dizia Neena’s Bar brilhava na janela.

Não me lembrava de alguma vez ter visto aquele lugar. O espaço não tinha mais que talvez uns 4-5 metros de largura. Parecia quase como se tivesse sido encaixado à pressão entre dois edifícios de tijolo gigantescos.

Entrei. Olhei em volta e vi que além do empregado do bar parecia haver apenas duas pessoas. À direita ficava um pequeno balcão com uns três metros de comprido. Sentada, uma mulher de longos cabelos louros encaracolados conversava com o barman. À esquerda, um homem de chapéu estava sentado a uma mesa. Dirigi-me ao balcão e sentei-me perto da mulher loura, deixando um banco de intervalo.

Ao sentar-me ela voltou-se e disse: - Ainda está a chover?

- Sim, mais do que nunca – respondi. Um calafrio percorreu-me a espinha.

- Que deseja tomar? – perguntou o empregado.

- Uísque com gelo.

Observei as calças molhadas e pensei que devia ter parado noutro sítio qualquer. Chocolate quente teria sido mais agradável. Olhei em volta e perguntei a mim mesmo por que teria entrado ali. O sítio parecia misterioso.

- Dá-lhe o especial, Danny. – A mulher loura interrompeu os meus pensamentos.

- Ok! – disse o empregado.

Com um sorriso amarelo, pensei que aquilo me ia sair caro.

- Não se preocupe com isso. É por conta da casa – disse a mulher loura, como se tivesse escutado os meus pensamentos.

- Obrigado – disse eu, agradavelmente surpreendido. Olhando-a de relance, pensei que podia contar pelos dedos duma mão as vezes que tinha ouvido aquilo.

Ela era muito bonita, com um cabelo longo e encaracolado que parecia macio como seda. Timidamente desviei o olhar e continuei a observar em volta. Achava aquele sítio estranho, mas familiar e seguro ao mesmo tempo.

O empregado pôs o copo de uísque na minha frente, mas sem gelo. Eu ia dizer qualquer coisa mas ele ainda segurava o copo.

- Não temos chocolate quente, mas eu posso-lhe aquecer isto – disse ele rapidamente.

- Uísque quente? Nunca em tal ouvi falar! – disse eu, franzindo as sobrancelhas.

- É muito bom, experimente! – disse a mulher loura.

- Bem, por que não? – Eu estava sempre disposto a experimentar coisas novas.

O meu cabelo estava encharcado e caíam-me pingos de água pelo rosto. Ia precisamente perguntar onde ficava a casa de banho quando o empregado me estendeu uma toalha.

- Obrigado.

Esfreguei o cabelo e o rosto e ao pousar a toalha reparei pelo canto do olho que a mulher loura tinha passado para o banco a seguir ao meu. Isso pôs-me um bocadito nervoso. Não olhei para ela mas observei o empregado a aquecer o meu uísque e esperei que ele o trouxesse. Havia ali um silêncio espectral; não se ouvia música, não havia rádio, nem um ruído. Não era nada costume. Eram prenúncios de outra noite sobrenatural, pensei para comigo.

O empregado pousou o copo de uísque quente na minha frente e afastou-se um pouco na expectativa. Ergui o copo sabendo que havia dois pares de olhos em cima de mim e bebi um gole.

Dirigi-me à mulher loura: - Tchi… evapora-se antes mesmo de chegar ao estômago! É muito bom, obrigado.

Estabelecemos contacto visual ao mesmo tempo que ela sorria, e isso foi um erro. Os olhos dela eram como um oceano calmo reflectindo a Lua e as estrelas. Desviei o olhar, embaraçado. Danny afastara-se um pouco e lavava uns pratos. Fiquei em silêncio, olhando em frente e aquecendo as mãos no copo de uísque. O silêncio fez-me voltar ao meu livro. Talvez eu devesse frequentar um curso, pensei para comigo, ou, melhor ainda, talvez devesse esquecer aquilo tudo. Este pensamento deu-me uma sensação de alívio temporária.

- A propósito, o meu nome é Neena. – A mulher loura sorriu.

Quase entornei o copo. Tenho tendência para me afundar nos pensamentos e preciso de ser despertado com delicadeza.

- Desculpe, não era minha intenção assustá-lo. – Neena estendeu a mão.

- Tudo bem. Sou o Klaus.

- Prazer em conhecê-lo, Klaus. Este rapaz bem encarado atrás do bar é o Danny. Mas por que franziu tanto as sobrancelhas?

- Não reparei que estava a franzir as sobrancelhas.

- Problemas com a namorada?

- Não. – E bebi uns goles do meu uísque quente.

- Talvez o melhor seja contar-lhe, que ela não desiste enquanto você não o fizer – Danny sorriu do outro lado do balcão.

- É uma longa história – disse eu com um aceno de cabeça.

Neena inclinou-se para a frente e dirigiu-me um daqueles olhares de quem tem a noite toda pela frente. Nervosamente, sorvi um grande gole do meu uísque.

- Traz outro ao Klaus, Danny – disse Neena.

- O que eu devia era ir para casa – disse eu em voz alta, enquanto uma outra parte de mim dizia por favor dá-me mais! Sem dúvida há ali um sortilégio qualquer.

Danny não ligou nenhuma ao que eu disse e começou a encher outro copo.

- Anda lá, Klaus, deita isso cá para fora! Vamos! – exigiu Neena, com o rosto quase encostado ao meu para me obrigar a olhar para ela.

Uma parte de mim disse olha para ela, não sejas pato!

- Klaus! - disse Neena muito alto.

Senti a mão dela bater-me no braço, interrompendo-me os pensamentos.

- Quê?

Fiquei um pouco desagradado por ser tocado por um estranho.

- Anda lá, deita isso cá para fora! – comandou ela.

Fitando os olhos dela, perguntei a mim mesmo quantas espadas se haviam juntado para os tornar tão agressivos. Os meus lábios começaram a mover-se ainda antes do pensamento. Detesto quando isto acontece.

- Estou a tentar escrever um livro sobre uma coisa que aconteceu tempos atrás, mas não faço ideia de como escrevê-lo nem por onde começar. Não consigo pensar noutra coisa – disse eu, prometendo a mim mesmo não tornar a olhar para aqueles olhos.

- De que é que trata? – perguntou ela, enquanto Danny colocava a bebida na minha frente.

- É sobre anjos, ou talvez mais sobre o Amor, acho eu; acerca da vida, da razão por que vivemos, principalmente acerca do Amor, acho… - Desejei ter entrado noutro sítio qualquer.

- Mas isso é interessante. Então o que é que aconteceu? – Não havia dúvida de que Neena era muito persistente.

Abanei a cabeça. – É uma longa história, e é realmente bizarra.

Danny riu. – Se você sair daqui sem lhe contar a história, isso é que será mesmo bizarro.

Tornei a abanar a cabeça. – Eu nem saberia por onde começar!

Pensei um pouco no assunto, pois de algum modo eu estava em pulgas para a contar a alguém. Considerando que provavelmente nunca mais tornaria a ver aquelas pessoas, esta devia ser a oportunidade perfeita. Mas por onde começar?

- Comece mesmo pelo princípio – Neena desviou-me dos meus pensamentos.

Danny inclinara-se para a frente e estava pronto para escutar. Era óbvio que a situação lhe agradava.

- Tenho de dizer-vos que é uma história muito estranha - disse eu.

- Somos todos ouvidos. – Neena rejubilava com a vitória.

Isso vejo eu, pensei para comigo.

- Dêem-me um momento para pôr os pensamentos em ordem – pedi.

 

Verdade

O que é a imaginação?
O que é a realidade?
O que é a verdade?
É realidade o que imaginamos?
Ou aquilo que imaginamos
É realidade?
Então o que é a verdade?

Capítulo Dois

“Uma história tem realmente um princípio, ou tem mesmo um fim? Onde é que começa e onde é que acaba? Começa no início de uma viagem, no fim de uma viagem…”

Parei por momentos para ver se eles ainda estavam atentos.

“Ou começa quando tomamos certas decisões que nos levam a um caminho que nos leva ao princípio da história? Ou a história começa quando iniciamos a jornada, ou quando começamos a fazer as malas, ou quando fazemos os respectivos planos? E quando é que acaba? Se uma história nos modificou, acaba quando deixamos de falar dela? E qual é a parte importante? Todas as decisões que foram tomadas ou os caminhos que foram seguidos? A história é como o ponto onde quatro estradas se cruzam? Digamo-lo sem rodeios… não há princípio nem fim.

Se alguma vez quiserem ver-se livres de uma pessoa, é só darem-lhe uma linha assim… vai levá-la para longe como folhas secas ao vento estival.

Olhei para ambos tentando suster o sorriso que me provocava o imaginá-los soprados pela ventania…

- Concordo inteiramente – disse Danny. Neena concordou com um aceno de cabeça.

- É assim como a verdade. O que é a verdade? Por vezes a verdade pode ser muito confusa – respondeu Neena. Obviamente ela não estava a ser levada pelo vento.

- Que queres dizer? – perguntei, surpreendido por isto poder converter-se em assunto de conversa.

- Por exemplo – disse ela, - dez pessoas são testemunhas de um acidente: há dez versões do que aconteceu e a única coisa que sabemos ao certo é que há vários carros amolgados. E depois vem a questão: quando é que aquilo realmente aconteceu? Começou quando um carro se descontrolou ou quando os condutores entraram nos seus carros? Dizem que os nossos pensamentos criam a nossa realidade; ora se é assim, quando é que este acidente começou verdadeiramente?

Danny e eu concordámos com um aceno de cabeça.

- Consideremos ali aquele papel de parede – observou Danny. – Todos nós o vemos, mas aquilo é a verdade? O que nós vemos são cores às tiras; o que nós não vemos são as pessoas que trabalham nas fábricas e fazem estes papeis, os seus medos, os seus sonhos. Nem vemos as árvores donde veio este papel nem as pessoas que construíram a parede na esperança de poderem dar de comer às famílias, nem o proprietário com a esperança de ganhar dinheiro suficiente para pagar tudo isto. Tudo quanto vemos são faixas e cores. Mas isso não é realmente a verdade.

Durante o silêncio que se seguiu bebi mais um gole do meu uísque. Não sei porquê, mas veio-me à memória um sonho que tenho tido desde criança. Estava a pensar nele quando Neena me interrompeu o pensamento.

- Lá estás tu outra vez a franzir o sobrolho. – Neena tocou-me com o cotovelo. Devia estar a sentir-me em segurança porque a minha boca começou novamente a falar sem o meu total consentimento.

- Estava precisamente a pensar num sonho que tive quando era criança. Acreditava que o mundo podia ser um grande jardim. Vocês sabem o que eu quero dizer… cidades construídas no meio e à volta de jardins, onde toda a gente é feliz e anda a brincar e a plantar árvores de fruto, flores, morangueiros, e a apanhar fruta… e a brincar com os animais, como veados e coelhos e raposas que andam por ali sem receio nenhum das pessoas mas atraídos por elas. Pessoas sem medo das pessoas. Toda a gente cuidando de cada um em vez de se agredirem uns aos outros. – Fiz um gesto com as mãos. – Apenas um sonho estúpido que nunca ninguém vai ver realizar-se; andamos demasiado ocupados a rebentar com tudo e a tentar ganhar mais dinheiro do que os vizinhos…

- Nunca se sabe! – Danny curvou-se e tirou de baixo do balcão uma garrafa verde esquisita. Vi que tinha rolha mas não tinha rótulo.

- Tenho estado a guardar isto para uma ocasião especial – disse Danny com um brilho estranho no olhar.

Olhei para a garrafa. – Onde é que você arranjou isso? Num navio de piratas?

Danny alinhou três copos em cima do balcão e sorriu. – Não, não precisamente.

- Parece velha – disse eu, enquanto Danny se esforçava por extrair a rolha.

- E é! – disse Neena. – Muito velha.

- O que é?

Olharam um para o outro por momentos e Danny começou a deitar o líquido nos copos.

Encolhi os ombros. – Bom, então qual é a ocasião especial?

Não sei se era do uísque ou da companhia, mas sentia-me seguro e à vontade, mesmo sem me terem respondido à pergunta. A garrafa tinha apenas o suficiente para encher três copos pela metade. Danny pôs a garrafa vazia debaixo do balcão e estendeu um copo a cada um. Era um líquido espesso e de uma cor de sangue escuro. Aproximei o copo do nariz. Cheirava a doce, mas nada de álcool.

- Não tem álcool – disse Neena.

Sorri. – A que é que vamos beber?

- Aos sonhos! Que sejam belos e se realizem. – Neena levantou o copo.

- A mim, a mim! – Danny falava como um pirata.

Era incrível. Sabia a bagas, era doce e espesso, mas não podia dizer de que espécie de bagas era feito. As minhas papilas gustativas activaram-se. Bebi outro gole, e mais outro, e deslizei para um mundo que é meu. Senti como se cada uma das células do meu corpo tivesse rejuvenescido. A bebida tomou conta de mim, e quando Neena disse talvez seja melhor beber lentamente! - era tarde demais; já eu sugava a última gota e queria mais…

Quando pousei o copo riam ambos a bandeiras despregadas. Olhei para os outros copos e verifiquei que mal lhes tinham tocado. Deve ter sido a maneira como olhei para o copo de Neena que a fez afastá-lo do meu alcance. Não tive outro remédio senão rir com eles. O meu pensamento era tão claro como o som de um sino. Sentia-me também pletórico de energia.

- Uau! É boa fazenda! Vou levar uma caixa…

Eles continuavam a rir.

- Ena, pá! Estava capaz de dominar um dinossauro!

Tenho a certeza que tinha no rosto um riso alarve que faria inveja a qualquer palhaço.

Neena pousou uma mão sobre a minha. – Bom, agora que já sabes que não vamos fazer troça de ti, talvez te apeteça contar essa história sobre anjos e Amor.

- Pois seja – disse eu. – O prometido é devido.

- Começa do princípio e não deixes nada de fora – disse Neena.

- Deixa-me só pôr a cabeça em ordem. – Empurrei o meu copo de uísque vazio na direcção de Danny para ele o tornar a encher.

Assim mesmo

O mundo é uma grande tigela de sopa
Em rodopio constante
E se as ervilhas e as cenouras
Não se derem umas com as outras
É pena.
Porque vão de certeza encontrar-se muitas vezes
E ninguém se vai embora
Até sermos todos amáveis e afectuosos
As coisas são assim mesmo

Capítulo Três

Pus os pensamentos em ordem enquanto Danny enchia o meu copo. Meti a mão na algibeira do casaco à procura dos cigarros. Olhei em volta a ver se o homem ainda estava sentado à mesa. Parecia que não se tinha mexido nem um dedo, o que era bastante estranho, uma vez que nada lhe tinha sido servido desde que eu chegara, e já lá ia quase uma hora.

Danny pôs a bebida na minha frente enquanto eu puxava uma fumaça do cigarro.

- Então, Klaus? – Danny esboçou um sorriso pateta. – Estou a pronunciar o teu nome correctamente?

- O suficiente. – Chocalhei o gelo no meu copo.

- Achei que desta vez talvez preferisses frio. – Danny continuava com o riso alvar.

- O teu instinto acertou. Obrigado! – Devolvi o sorriso.

- Então e essa história?

- Passei a maior parte da vida, excepto a última meia dúzia de anos, muito infeliz. É difícil de explicar mas havia uma profunda tristeza interior. De facto a melhor maneira de explicar é que parecia que não havia em mim felicidade. Ou talvez devesse dizer que a felicidade faltava, e acontecesse o que acontecesse, fosse bom ou mau, simplesmente não existia felicidade, e eu nada podia fazer contra isso.

Estão a ver, o problema é este… para compreenderem verdadeiramente o que quero dizer, precisam de conhecer o resto da história, mas ao mesmo tempo não posso realmente contar-vos a história sem vos falar desta parte. – Abanei a cabeça.

Danny deu a volta ao balcão para vir buscar um banco. Levou-o para onde tinha estado de pé e sentou-se.

- Eu posso compreender os sentimentos, Klaus, mas não posso ouvi-los – disse Neena.

- Só de pensar nesses dias fico um pouco triste – disse eu em voz baixa.

- As pessoas não notavam que andavas triste? - A voz simpática de Neena tentava dar-me uma ajuda.

- Essa parte realmente não interessa – disse eu. – Mas no que diz respeito à infelicidade, experimentei toda a espécie de coisas ao longo dos anos. Até observei as outras pessoas para ver o que lhes trazia felicidade, e depois tentava as mesmas coisas. Por exemplo, reparei que quando as pessoas compravam um carro novo ficavam realmente felizes… pelo menos por algum tempo. Ou então andavam felizes se começavam uma relação. Há uma quantidade enorme de coisas que as pessoas fazem para ser felizes, e basicamente eu experimentei-as todas. Pode parecer estranho, mas nenhuma dessas coisas fez nada por mim. Na verdade, a maior parte das vezes fazia-me mais infeliz do que antes, simplesmente porque eu esperava que acontecesse alguma coisa e não acontecia nada. Vem-me à memória um exemplo disparatado: lembro-me de comprar um carro novo a pensar que isso me ia trazer felicidade, mas depois de comprar o carro acabei por me sentar dentro dele duas ou três horas, esperando ficar inundado de alegria ou felicidade, como parece que acontece com outras pessoas. Mas nada aconteceu. Não fiquei mais feliz do que era antes de comprar o carro. Parece no entanto que não é este o caso com outras pessoas. Mas não deixei de tentar. Tentei muitas outras coisas ao longo dos anos. Li centenas de livros de todas as espécies, sobre meditação, poder da mente, controlo da mente, pensamento positivo, livros sobre o Amor, sobre a vida, toda a casta de livros de auto-ajuda – mas não serviu de nada. Era como se alguma coisa faltasse em mim. Mas reparei também que não era o único e que havia muita gente em situação idêntica. Saber que não era o único não foi grande ajuda. Se por um lado estava determinado a resolver este problema, por outro lado sentia-me desesperado e muitas vezes desisti. Também frequentei cursos e me juntei a grupos de auto-ajuda. O mais interessante de tudo foi quando decidi fazer terapia. Foi para mim um tempo doloroso; estava convencido de que havia algo de errado comigo. Mas ao fim de três semanas em que fiz das tripas coração, disseram-me que estava fino e sem dúvida nenhuma de boa saúde, o que foi bom de ouvir; disseram-me também que não havia razão nenhuma para continuar com as sessões. Tudo o que eu precisava era descobrir qualquer coisa que realmente gostasse de fazer e dedicar-me a isso. É pena que as coisas não fossem assim tão simples.

Parei por momentos para acender outro cigarro e reparei que Danny ria sozinho.

- Mas que raio de piada é que isto tem para ti?

- É que eu nunca conheci ninguém que se sentasse dentro do carro duas ou três horas à espera que a felicidade brotasse. Mas saúdo a tua determinação. – Danny fez-me um cumprimento com um sorriso rasgado.

- Essa infelicidade foi então a força que te impulsionou? – perguntou Neena.

- Exactamente. Em vez de andar em busca de dinheiro, fama, Amor, carreira profissional, ou qualquer das coisas em que normalmente as pessoas ocupam a vida a tentar realizá-las - tudo o que eu queria era ser feliz. Dito de outra maneira, queria livrar-me da dor e do sofrimento que sentia.

Fiquei absorto em pensamentos observando as espirais de fumo que saíam do cigarro. Pensava em certas coisas que a falta de felicidade nos leva a fazer e nos caminhos que nos arrastam para baixo. Havia também algo mais no meu espírito e estava a tentar decidir se devia ou não abordar o assunto, quando Neena me interrompeu os pensamentos.

- Seria de admirar se nunca tivesses pensado em pôr termo a tudo isso, ou talvez em fazer uma tentativa! – disse ela.

Olhei para Neena. Vendo o fulgor dos seus olhos, pensei: é evidente que o universo trouxe para este jogo alguns dos seus melhores jogadores e não deixa nada ao acaso. Parece que o universo me conhece melhor do que eu julgava.

Levantei-me e perguntei onde ficava a casa de banho. Precisava de um momento para pôr os pensamentos em ordem. Danny apontou para uma pequena porta de madeira na extremidade do balcão.

A casa de banho não era muito grande, não muito maior que um anexo, sem janelas e sem qualquer hipótese de alguém se escapar por ali, se fosse essa a ideia. Pensei em tudo o que tinha dito até então e decidi continuar. Afinal de contas não tinha nada a perder.

 

A Vida

Às vezes a vida é
Como um gigantesco jogo de dados
Que prossegue sem parar
E quando nos tornamos realmente bons a jogar
Talvez o universo faça uma jogada
Só para nos fazer pensar
Talvez as coisas se tornem ainda melhores
E assim
O jogo continua.

Capítulo Quatro

Quando voltei da casa de banho vi que o tal homem continuava sentado à mesa. No caminho para o balcão mantive a distância que me separava dele. Uma regra muito importante a recordar quando se joga com o universo é que é necessário jogar com respeito, e de preferência mostrar respeito; não é que o universo se incomode connosco, só que pode querer dar-nos uma nova carta, porque o universo também gosta de ensinar. Uma das coisas que você não precisa que o universo lhe ensine é como respeitar o jogo - pode crer.

Sentei-me no meu banco e bebi o resto do uísque de um só trago. Ao acender outro cigarro verifiquei se tinha cigarros suficientes, pois ia ser uma noite longa.

Danny deitava sumo de laranja em dois copos e perguntou se eu também queria. Não tinha reparado antes, mas aparentemente Neena e Danny tinham acabado de beber o que quer que fosse que saíra da garrafinha verde.

- Sim, fazes favor. Óptima ideia! – disse eu.

Danny colocou um copo diante de mim, o outro diante de Neena, e sentou-se no seu banco. Houve um momento de silêncio.

- Acho que também podia contar-vos tudo – disse eu com uma leve hesitação. – Foram ao todo três vezes que eu decidi levar a coisa até ao fim. Não foram propriamente tentativas físicas, mas foi o suficiente para causar uma comoção forte.

- Têm a certeza que querem que eu conte esta parte ou querem que eu passe à frente?

- Aconteceu alguma coisa interessante nesse período de tempo? – perguntou Danny.

- Ah, sim, sem dúvida! – disse eu sarcasticamente. – A minha vida tem sido uma grande dança, uma grande canção.

- Deve ser interessante! – Neena olhou para Danny e riram ambos. Ignorei-os.

- Bom, a primeira vez foi há um bom par de anos atrás. As coisas não andavam assim tão más, excepto que eu era infeliz. Tinha tudo o que devia fazer uma pessoa feliz, mas não era esse o caso. O problema que me fazia andar tão deprimido nessa altura é que eu tinha passado vários meses a ler livros e a fazer um esforço muito sério para ser feliz. Tinha-me esforçado bastante, mas o resultado era zero. Parecia-me que as coisas pioravam em vez de melhorar, e a gota que fez transbordar o cálice foi numa noite em que eu estava a ler um livro novo que tinha arranjado nesse mesmo dia. Quem o escreveu relata o encontro com um instrutor que lhe ensinou várias coisas fascinantes. O que realmente me aborreceu foi que ele teve um instrutor mágico que foi ter com ele vindo do espaço e lhe ensinou tudo o que ele queria saber, ao passo que eu tenho de andar sozinho a debater-me com os meus problemas. A outra coisa que me chateou foi que ele refere certas coisas interessantes que aprendeu mas não dá instruções de como fazê-las. De que serve falar-me daquelas coisas sem me dar instruções? Um desperdício de papel e um desperdício do meu tempo. – Inclinei-me para Neena e sussurrei: - A minha atitude nesse tempo tinha-se radicalizado um pouco.

Abanei a cabeça. - Lembro-me de tudo com grande clareza. Achava que o universo se tinha esquecido de mim. Estava tão frustrado e desesperado que lancei o livro contra a parede. Em pensamento, gritei que se não recebesse auxílio imediatamente, na manhã seguinte levava o carro até às montanhas e precipitava-me do rochedo abaixo. Sentia a cólera correr-me nas veias. Ao fim e ao cabo, é provável que não viesse a fazê-lo, mas naquele momento a decisão estava tomada. Imaginava eu que o universo podia ignorar-me enquanto eu estivesse aqui, mas se eu já cá não estivesse, diante dele seria muito mais difícil ignorar-me!

“Não sei exactamente quanto tempo passou, mas diria que a coisa começou não mais de cinco minutos depois de ter gritado aquelas palavras em pensamento. Os meus sentidos interiores pareciam brotar para a vida e eu senti a presença de qualquer coisa muito grande. Era enorme e parecia que tentava encolher-se para caber na minha casa; mas era grande demais e acabou por ocupar o espaço do bloco de apartamentos inteiro, e mesmo assim não era suficiente. Na verdade eu não via nem ouvia coisa nenhuma, mas sentia-o com todo o meu ser – é a única maneira de o descrever. Não sou capaz de descrever o susto que sentia. Acho que nunca estive tão assustado. Quase fiz chichi na cama.

Tinha uma casa pequena mas aberta, e da minha cama via a entrada, parte da cozinha e uma grande parte da sala de estar. Todas as luzes estavam acesas porque não gosto da escuridão. Assim que escurece, sinto sempre como se houvesse uma coisa grande atrás de mim a observar-me. Que eu me lembre, a escuridão sempre me assustou. Por isso tenho sempre as luzes acesas e nem gosto dos cantos escuros; quem sabe o que lá pode estar escondido? Segundos depois as luzes começaram a apagar e a acender. Era quase musical. Eu tremia de medo, literalmente. Sentia aquela presença a formar-se, e de repente ouvi uma voz na minha cabeça: Devias saber melhor…!

E foi assim. As luzes deixaram de piscar, e o que quer que fosse desapareceu. Fiquei tão assustado que, mesmo com uma enorme vontade de ir à casa de banho, não saí da cama até à manhã seguinte. Nem dormi em casa na noite seguinte. Misteriosamente, uma quietude estranha desceu sobre todo o prédio e durou várias semanas. Dias depois ouvi duas outras pessoas na lavandaria falar do assunto, e parece que outras pessoas no prédio tinham igualmente pressentido qualquer coisa mas não conseguiam explicar o que tinha sido.

Este incidente bastou para que me abstivesse de me lamentar das circunstâncias da minha vida durante quase dois anos. Mas entretanto começou a perder influência.

Parei para beber mais um gole do meu sumo de laranja.

- O que é que tu pensas que te veio visitar? – perguntou Neena.

Abanei a cabeça. – Não sei, e na verdade não quero saber! É óbvio que lixei alguém, e francamente o que eu quero é deixar as coisas como estão, porque fosse quem fosse que me veio visitar não estava lá muito bem disposto.

O tempo passava e as coisas não melhoravam. Começaram até a deteriorar-se mais ainda, e tornava-se cada vez mais difícil iludir a situação. Pôr um sorriso no rosto e fingir que se é feliz quando se não é consome uma grande quantidade de energia; além disso, andava assustadíssimo com aquilo. Estranhamente, porém, estava preparado para a segunda volta e não ia simplesmente ficar assim a tremer de medo. Fazia planos para travar uma batalha. Afinal de contas, tenho o direito de ser feliz. Quando se está realmente deprimido e em baixo, normalmente não se pensa direito. E o facto é que pedi ajuda e não recebi nenhuma.

Por momentos pensei no que tinha dito. – Bem, não é totalmente verdade – acrescentei com um sorriso amarelo.

- Ah, então recebeste mesmo ajuda? - perguntou Neena.

- Sim. Ganhei uma viagem ao México e enquanto lá estive conheci alguém que provavelmente me podia ter ajudado, mas havia uma série de circunstâncias para as quais eu não estava preparado. Por outro lado, o rumo da minha vida teria mudado e talvez nunca tivesse tido a oportunidade de descobrir como ganhar a lotaria. E, de certo modo, só isso já valia a pena. E também podia ter implicado que a história que vou contar-vos não tivesse acontecido, e isso seria uma grande perda.

- Espera aí! Estás a querer dizer que descobriste como ganhar a lotaria? – Danny cruzou os braços no peito como se quisesse dizer que tal coisa era impossível.

- Sim, mas lá chegaremos mais tarde.

- Ganhaste mais do que uma vez? – Os olhos dele pareciam do tamanho de melancias.

- Ah, sim.

Afastei o meu banco do balcão e levantei-me. Precisava de me esticar um pouco.

- Então saiu-te o tiro pela culatra pela segunda vez consecutiva? – Neena esboçou um sorriso.

- Não, não propriamente. Precisamente o contrário. Vocês aqui não têm música? – disse eu, tentando mudar de assunto. – Há aqui silêncio demais!

Danny levantou-se e dirigiu-se a uma prateleira onde estava um pequeno gravador. Pôs uma bobina e ajustou o volume. Não sei o que era mas soava como uma espécie de música new age que encobria o silêncio agradavelmente.

Lar

Lar, o próximo lugar onde descanso a minha alma
As encruzilhadas da vida
Onde plantar sementes de fé
Criar plantações de Amor
E ponderar qual o rumo a tomar a seguir
Antes de rumar para o Lar
Para as próximas encruzilhadas da vida
Onde plantar…

Capítulo Cinco

Estiquei-me um pouco e tornei a sentar-me, tencionando fazer uma pausa e ouvir um pouco de música, mas Danny lançou-me um olhar de impaciência e bateu com os dedos no balcão. Percebi a ideia.

“Foi uns dois dias mais tarde. Emocionalmente a minha situação era a mesma, só que desta vez tinha perdido o emprego e caminhava para a minha primeira situação de falência. Perder o emprego ou ficar sem dinheiro não era o pior. Durante um ano trabalhara arduamente num grupo de apoio, e como resultado de todo esse trabalho ganhara apenas alguns amigos e conseguira lamentar-me um pouco. De facto livrei-me de alguns pesos que tinha em cima, mas continuava a não ser feliz.

- Tentaste mais alguma coisa nesses dois anos além do grupo de apoio? – perguntou Neena.

- Tentei montes de coisas diferentes, mas de uma maneira ou de outra parecia quase como se alguma coisa houvesse que me impedia de encontrar a felicidade. Nesse tempo nada fazia verdadeiramente sentido. Agora compreendo, mas naquela altura estava a ficar maluco.

Mergulhámos os três em silêncio. O meu pensamento prendia-se ao passado,

- Lembro-me agora. Andava mesmo abalado. Estava a ficar maluco, sabem? Andava danado com o universo. Por uma série de razões estava abalado com o que quer que fosse que me tinha vindo visitar. Que direito tinha aquela coisa de me pregar um susto de morte, ainda por cima sem verdadeiramente me ajudar, só para me dizer que eu devia saber melhor? Como é que eu devia saber melhor? Estava pronto para a luta! E também muito cansado da vida. Nada parecia resultar comigo e tudo o que eu tocava parecia converter-se em pó. Acho que a melhor maneira de o descrever seria dizer que a vida sem felicidade torna-se uma noite interminável. Havia também uma enorme e profunda dor interior de que não conseguia livrar-me. É-me quase impossível exprimir verbalmente todos os sentimentos e emoções que tinha naquele tempo. Não conseguia entender porque é que uma coisa como a felicidade interior, que devia ser tão natural, era tão difícil para mim e me estava a deixar de pantanas. Fico muito irritado quando não consigo o que quero, especialmente se me esforço duramente para o conseguir. Devo dizer que não era sempre totalmente infeliz. Tinha momentos felizes mas não estava satisfeito com a quantidade de felicidade que tinha, e queria mais. Percebem o que quero dizer?

Neena olhou para mim. – Sim, acho que percebo.

- Achas mesmo que podias levar a melhor com uma coisa que talvez seja cem vezes maior do que tu? – perguntou Danny.

Abanei a cabeça. – Nem sempre é importante vencer. O que é importante é resistir. Obviamente a minha atitude não era exactamente a mais correcta. Eu pensava que a vida não tinha nada para me oferecer e queria ir para outro lugar qualquer. O que sempre me admirou é que as pessoas lutam por pedras, lixo e tudo o mais, excepto por Amor e alegria. Estas é que são as coisas pelas quais vale realmente a pena lutar. Tudo o mais não é mais do que temporário.

Danny concordou com um aceno de cabeça.

“Era cerca de uma hora da madrugada. Tinha já tomado a decisão: de manhã ia de carro até às montanhas e fazia aquilo parecer um acidente. Mas pouco depois de tomar a decisão comecei a sentir-me verdadeiramente em paz. Era qualquer coisa que nunca sentira antes. Estava tranquilamente deitado na minha cama. Acho que durante aquele tempo passei pelas brasas, estive num estado meio a dormir, meio acordado, e nesse estado semelhante a um transe tive uma visão. Era tão real como qualquer coisa concreta, tal como eu estar ali fisicamente. Era no meio de uma galeria de arte. Estava a olhar à minha volta quando reparei que muitos quadros que estavam pendurados nas paredes eram meus. Foi então que a brincadeira começou. Ouvi uma porta a abrir-se e uma mulher entrou. Era alta e esguia, com cabelo liso e comprido que lhe chegava quase até aos ombros, pele de um branco leitoso e grandes olhos. Antes que me apercebesse, ela estava mesmo à minha frente. Era incrivelmente bonita. A única forma de o dizer é que era mais bela do que o próprio rosto. Podia ver-se a beleza mesmo para além da aparência. Estávamos frente a frente, afastados não mais que uns trinta centímetros.

“Ela perguntou: - És tu o Klaus?

“No momento em que ela disse aquilo, senti como se cada célula do meu corpo tivesse voltado à vida e estivesse a prestar atenção. Era como se eu fosse feito de biliões e biliões de células e cada uma tivesse a sua própria consciência e nesse momento todas elas estivessem a prestar atenção. Foi a sensação mais estranha mas ao mesmo tempo uma das coisas mais belas que alguma vez experimentei. Era como se cada célula do meu corpo fosse um indivíduo que tivesse interesse na minha vida. Quase como se as células fossem pequenos seres, todas a funcionar em conjunto para criar o meu corpo físico, a fim de que eu pudesse viver e experimentar a vida física. Tive a impressão de que tudo o que eu faço as afecta e tem importância para elas.

“Tentei responder à pergunta dela mas não fui capaz. Muita coisa estava a acontecer no meu corpo, por isso apenas acenei com a cabeça. Ela estendeu a mão e disse, enquanto apertávamos as mãos: - Gostaria que não saísses daqui por algum tempo. Tudo vai fazer sentido mais tarde.

“A voz dela era como se estivéssemos a escutar um milhar de anjos. Todas as células do meu corpo continuavam atentas. Era esmagador. Infelizmente, no momento em que ela acabou de falar tudo terminou, e eu estava de regresso à cama, bem acordado. Nos meses seguintes andei obcecado com esta visão e tentei muitas vezes repeti-la, mas sem resultado. Nem pouco mais ou menos.

- O que é que te impressionou tanto nessa visão? – perguntou Neena.

- Pensei que talvez fosse encontrar aquela pessoa na vida real. Era uma ideia estúpida, mas era um raio de esperança. Só aquela esperança me deu ânimo durante quase três anos, uns três anos bem compridos, posso acrescentar. Mas acho que era esse o plano. Provavelmente o universo imaginou que, se pelo medo não podia obrigar-me a ficar por cá, talvez seduzindo-me o resultado fosse melhor. É óbvio que resultou, pelo menos durante algum tempo.

- Talvez fosse um desequilíbrio químico no teu corpo. Alguma vez pensaste nisso? - perguntou Danny.

- Ah, sim. Pensei nisso e até consultei vários médicos, mas o facto é que eu preferia sofrer a viver o resto da vida à custa de medicamentos. A maioria deles tem efeitos secundários graves e, de algum modo, eu também receava não poder ser feliz sem eles. Tinha também a esperança de que algum dia encontraria a resposta. Medicamentos são apenas uma solução temporária; não resolvem o problema ou a situação que está primariamente na origem do problema. Tanto quanto eu penso, a felicidade e o Amor não podem ter nada a ver com as circunstâncias ou as experiências ou o meu corpo físico.”

A Última Posição

Oh, meu amigo, não somos nós obstinados?
Oh, sim, somos.
O universo a que queres resistir,
Um milhar de guerreiros, espadas de aço desembainhadas,
Quinhentos cavalos pesados
Contra eles queres resistir com a tua espada de palha
Tenho sido um guerreiro o tempo todo e mais algum
E não sei tudo,
Mas isto eu sei:
O sangue vai correr neste dia
Será teu, meu amigo,
E meu também.
Pois com honra tenho de permanecer.
Por isso te pergunto
Pensa
É este um dia bom para morrer?

 

Capítulo Seis

“Tenho a certeza que foi perto de três anos mais tarde. Era à tardinha. Tinha saído para jantar mas não era capaz de comer. Andava totalmente em baixo, deprimido, desfeito em lágrimas. Meti-me no carro e comecei a andar. Estava tão entorpecido e exausto que meti pela auto-estrada em direcção às montanhas. Por alguma razão, saber que dali a uma ou duas horas tudo estaria acabado dava-me uma sensação de alívio.

- É esse o problema com o suicídio: as pessoas pensam que é uma saída, mas a verdade é que isso desencadeia outra vez o processo todo – observou Neena.

- Concordo. Mas quando a pessoa está mesmo muito em baixo, nada mais importa senão livrar-se dessa escuridão, mesmo que seja por pouco tempo. Eu teria dado qualquer coisa só para ser feliz uma semana. Era nesse ponto que as coisas estavam.

Neena assentiu com um gesto de cabeça.

- Algures durante o caminho deves ter mudado de ideias, senão não estavas aqui hoje! – disse Danny.

Não sei porquê, mas por alguma razão o lábio superior de Danny tremia ligeiramente. Achei aquilo muito divertido.

“Na verdade não mudei de ideias. Foi assim: a uns 30 minutos de Calgary ficava um posto de gasolina. O meu carro tinha muita gasolina mas, por alguma razão estranha, assim que lá passei o motor começou a engasgar-se e a trabalhar aos solavancos. Não dava mais que uns 10 km por hora. Era como se alguém desligasse e tornasse a ligar a ignição muito rapidamente. Verifiquei o indicador da gasolina e havia muita. Além disso o carro era novo. Resolvi sair da auto-estrada e voltar ao posto de gasolina, pensando que haveria alguma deficiência na ignição electrónica. Mas quando me aproximava do posto de gasolina, o carro começou a andar perfeitamente. Não havia motivo para tentar uma reparação, pensei eu, desde que ele fizesse a viagem. E depois já não interessava absolutamente nada. Decidi, pois, tornar a entrar na auto-estrada e retomar o caminho das montanhas.

“Tinha de andar cerca de um quilómetro e meio na auto-estrada até encontrar sítio para dar a volta. Estava tão mal disposto que nem sequer me importava se tivesse de empurrar o carro ate lá. Saí da auto-estrada e tornei a dirigir-me para as montanhas. Mas assim que cheguei ao posto de gasolina o carro tornou a engasgar-se e a andar aos solavancos! Experimentei meter mudanças, acender as luzes, desligar e ligar a ignição, mas nada parecia ajudar. O carro lá foi aos solavancos até chegar a outro acesso à auto-estrada. Da maneira como o carro andava, mal consegui entrar na auto-estrada. Levei 10 ou 15 minutos para voltar ao posto de gasolina, tão devagar o carro progredia. O motor ia-se abaixo de vez em quando mas eu punha-o novamente a trabalhar. Assim que me aproximei do posto de gasolina, o motor voltou à vida e trabalhava perfeitamente. Passei então pelo posto de gasolina e dirigi-me para o acesso à auto-estrada, a cerca de quilómetro e meio. O carro continuava a portar-se bem. Entrei na auto-estrada e comecei outra vez a dirigir-me para as montanhas. O estúpido do carro andou bem até perto do posto de gasolina, e então aconteceu a mesma coisa. O motor começou a engasgar-se e a ligar e desligar. Eu estava a ficar bastante frustrado e resolvi continuar a andar assim mesmo, mas quanto mais me afastava do posto de gasolina pior o carro se comportava. Finalmente não tive alternativa senão tornar a sair da auto-estrada, e o facto é que ao chegar ao posto de gasolina o carro andava normalmente. Voltou à vida e ronronava como um gato.

- Porque é que não paraste no posto de gasolina e não mandaste ver o que se passava? – perguntou Danny.

- Eram nove ou dez horas da noite e pensei que não havia lá nenhum mecânico àquela hora. Além disso o carro andava bem do outro lado da auto-estrada, e de algum modo eu sabia que não havia avaria nenhuma. Daquela vez não ia deixar o universo impedir-me assim tão facilmente.

- Conversa de teimoso. – Neena abanou a cabeça.

- Talvez, mas eu estava fora de mim e ia mostrar ao universo que estava farto.

- Deixa-me adivinhar. Andaste assim até o teu carro dar o berro! – Danny sorria como se soubesse.

- Foi quase isso, mas não exactamente – disse eu. – Mas continuei a andar em círculos até às 9 ou 10 da manhã.

Explodiram ambos numa gargalhada. Não tive outro remédio senão juntar-me a eles. Olhando agora para trás, parecia coisa de malucos. E provavelmente foi.

- Queres dizer que acabaste por desistir? – Neena limpou as lágrimas do rosto cuidadosamente.

“Não, não desisti propriamente. Foi mais porque estava exausto e resolvi ir ao posto de gasolina comer qualquer coisa e meter gasolina. Depois ia continuar. Foi bom eles terem um restaurante aberto toda a noite. Dirigi-me ao posto de gasolina e mandei o empregado encher o depósito. Lembro-me que o empregado me olhou com estranheza, mas não liguei grande importância a isso. Estacionei o carro e entrei no restaurante. Estava muito sossegado. Sentados ao balcão principal estavam apenas dois velhos motoristas de pesados. Sentei-me numa ponta. Acho que naquele momento estava quase a delirar e com um aspecto assustador. Devia ter a cabeça descaída, olhos raiados de sangue e o rosto cheio de lágrimas. A empregada aproximou-se com uma caneca de café e olhou para mim. Com um olhar amoroso e preocupado, perguntou-me se era eu o indivíduo que tinha andado toda a noite de carro para cá e para lá.”

Eles continuavam a rir. Pegando no cigarro, franzi o sobrolho o melhor que podia, mas isso só os fez rir ainda mais.

- Ah, sim, riam, riam! Algum dia há-de calhar a vossa vez… e depois vamos ver se é engraçado!

- Que probabilidades é que achas que há de isso vir alguma vez a acontecer? – Danny olhou para Neena.

Ela levantou os braços. – Uma num milhão, talvez!

“Para encurtar a história, disse à empregada que o meu carro não andava na direcção das montanhas, só andava na direcção de Calgary. Mal podia falar. Tinha a boca seca e os lábios entorpecidos e estava demasiado cansado para ficar embaraçado.

“Ela perguntou-me para onde é que eu queria ir. Com ar sério respondi: - De um rochedo abaixo!

“Ela ficou a olhar para mim. Depois, subitamente rebentou a rir. Finalmente pareceu dominar-se e inclinou-se para a frente: - Você é um bocado casmurro, não é? Vou-lhe arranjar um pequeno-almoço porque você vai ficar connosco muito tempo.

“Deitou café na minha chávena e dirigiu-se à cozinha. Esperava ouvir risos na cozinha mas não ouvi nada. Presumi que ela não tinha contado a ninguém.

“Ela nunca me perguntou porque é que eu andava a tentar atirar-me de um rochedo abaixo. Depois de mais algumas palavras, café e pequeno-almoço à borla, meti-me no carro e fui para casa.

Por esta altura eles riam tanto que já começava a aborrecer-me. Desculpei-me e fui até à casa de banho. Não estava verdadeiramente aborrecido com eles, só um pouco (ou talvez muito) embaraçado.

Actualmente aquela estação de serviço está fechada; nada resta a não ser um edifício abandonado. Às vezes ainda passo por lá e pergunto a mim mesmo quantos é que lá pararam, como eu…

Pois bem, cá estou eu hoje, feliz por isso. No que respeita à promessa de que no final tudo havia de fazer sentido, cumpriu-se. Mas quanto ao “devias saber melhor”, ainda continuo um pouco indeciso.

E para a muito simpática e generosa empregada, o meu obrigado!

Procura-se

Um Anjo Guardião.
Tem de ter uma paciência
Incrível,
Inimaginável e
Absolutamente inconcebível.
Enviar Dados e Bilhete de Lotaria
Para Aptdo. 40081
À Atenção do Klaus.

Capítulo Sete

Quando voltei da casa de banho, Neena e Danny já se tinham dominado, mas ainda sorriam. Ao sentar-me, Danny perguntou se eu queria mais sumo de laranja.

- A intenção não era rirmos de ti daquela maneira – disse Neena.

- Tens de admitir que a parte do “você é um bocado casmurro” teve imensa piada - acrescentou Danny.

- Acho que vocês têm razão – concordei com um aceno de cabeça.

- Então foi isso? – perguntou Neena.

- Não, nem pouco mais ou menos! Daqui para a frente é que a coisa vai aquecer.

Danny sentou-se no seu banco. – Bom, a noite ainda é uma criança. Nós estamos prontos. Quando quiseres…

O lábio superior de Danny começou novamente a tremer. Inclinei-me para Neena: - Porque é que o lábio do Danny de vez em quando treme?

- Fica assim quando ele está a esconder alguma coisa. Ele não é bom para jogar póquer. – Ela riu.

Por momentos fiquei curioso de saber o que é que Danny poderia estar a esconder. Havia ali qualquer coisa que não me parecia bem. Gosto de ter sempre os olhos e ouvidos bem abertos para coisas que estão ligeiramente deslocadas. Esta era uma delas.

Olhei para o relógio, mas continuava a não trabalhar. Via-se a humidade por dentro do vidro. Ia perguntar que horas eram, mas desisti. Afinal, não havia nenhum lugar onde precisasse de estar.

- Ora vejamos – disse eu, procurando determinar o ponto em que tinha interrompido a narração. – Tinha andado no negócio da mediação imobiliária cerca de dois anos e a princípio tinha corrido bem. Mas o meu coração estava fora daquilo. Continuava a ser infeliz e passara os últimos seis meses principalmente a tentar alcançar a felicidade, ou mais felicidade. Entendam a coisa como quiserem, que para mim está tudo bem. Eu sei que já falámos nisto várias vezes, mas foi assim mesmo. Deixei a mediação imobiliária para passar o tempo todo a procurar uma solução para o meu eterno problema. Mas estava a ficar sem dinheiro, pelo que interrompi temporariamente e resolvi arranjar trabalho. Não levei muito tempo a encontrar um emprego bem pago. Dias depois fiz também um bom negócio com outra casa, que comprei e para onde mudei. Tinha decidido que também podia fazer a minha vida como toda a gente, o que significa ter um emprego, pagar as contas e economizar um pouco para a velhice. O meu filho estava a viver comigo e achei melhor dar-lhe um bom exemplo. A ideia de viver a vida desta maneira, à espera que chegue o fim, era terrivelmente deprimente, mas era tudo o que se me oferecia.

“Um dia, após cinco meses de trabalho, ao entrar no meu emprego disseram-me que estava despedido. Disseram que o negócio estava fraco e tinham de cortar nas despesas. Mas não era essa a razão verdadeira. Ele viam que eu era infeliz. Já não conseguia escondê-lo. Não tinha energia para andar constantemente de sorriso nos lábios. Tenho a certeza de que eles chegaram à conclusão de que eu não era feliz a trabalhar ali.

“Aquilo foi um choque. Não fiquei verdadeiramente preocupado, mas ao mesmo tempo não sabia o que havia de fazer a seguir. Andei por casa durante uma semana, sem fazer muito mais do que passear o meu cão todos os dias. Tinha um dinheirito, não muito, e as despesas da casa eram bastante elevadas. Não era uma casa grande, mas ficava numa zona boa. A economia não andava grande coisa e não havia lá muitos empregos bem pagos. Mesmo que eu conseguisse um emprego medíocre de imediato, sabia que não seria capaz de conservar a casa. Lembro-me de estar sentado no parque a observar Rudy, o meu cão, que andava por ali a brincar com outros cães, quando algo fez clique na minha cabeça. Por uma razão ou por outra, decidi que talvez devesse fazer mais uma tentativa para encontrar a felicidade. Pensei que talvez, em todos os livros que tinha lido no passado, alguma coisa me tivesse escapado, ou que não tivesse seguido as instruções correctamente. Assim que Rudy e eu voltámos a casa do nosso passeio no parque, saltei para dentro do carro e apontei à livraria. No caminho para a livraria, uma parte de mim achava que era uma total perda de tempo; todavia, outra parte de mim começara a vibrar com o maior entusiasmo. Reparei também que, sempre que me aplicava ao trabalho de descobrir a felicidade interior, ficava mesmo feliz. Só depois de passar algum tempo sem ser capaz de ir além dessa felicidade temporária é que ficava realmente deprimido. Tinha um forte pressentimento que desta vez ia conseguir. Lembro-me de pensar que tudo o que eu tinha que fazer era encontrar esse algo que me tinha escapado. Depois tudo correria bem.

- Tchhheee! E há quanto tempo é que isso dura? – interrompeu Danny.

- É isso – respondi. – Foi então que tudo começou a mudar.

- Graças a Deus. Isto estava a começar a deprimir-me. Já estamos perto da parte da lotaria?

- Mesmo a chegar.

“Bom, mas eu agarrei num monte de livros sobre tudo quanto me veio à cabeça - meditação, espiritualismo, visualização, controlo da mente, pensamento positivo, Amor, etc., até alguns livros sobre radiestesia, que não estava propriamente no contexto. Mas vi-os e resolvi levá-los. Passei semanas a lê-los, tomei notas, segui algumas instruções o melhor que pude. Lia desde que me levantava até ir para a cama. As únicas interrupções eram para comer qualquer coisa, ou para levar Rudy até ao parque e praticar o que era sugerido nos diversos livros.

- Conseguiste alguns resultados? – perguntou Neena.

- Para além do esforço que me fazia sentir bem, ou pelo menos melhor do que o costume, não consegui propriamente resultados – respondi. - Na verdade não esperava obter resultados. O que me movia era só um impulso para tentar de novo. Fazer aquele esforço dava-me uma sensação de esperança que em vários aspectos era bastante reconfortante. Claro que há uma diferença entre ter a esperança de conseguir qualquer coisa e aguardar que ela aconteça. Mas mais tarde voltaremos a falar nisso.

“Pois foi assim que tudo começou a mudar. Comecei a ficar muito inquieto e decidi que precisava de uma pausa. Telefonei a um amigo para ver se ele estava em casa. Peguei numas cervejas e fui até casa dele.

“Nesse tempo o meu amigo não estava numa situação financeira melhor do que a minha. Não estava a trabalhar e o dinheiro era pouco. Passava a maior parte do tempo a ver desportos e a jogar na lotaria desportiva. Mas as coisas não lhe corriam bem na lotaria desportiva. Eu estava a ver alguns bilhetes de lotaria brancos. Sarcasticamente, sugeri-lhe que usasse um dardo para escolher a equipa que ia ganhar. Ele riu e disse que provavelmente eu tinha razão. Eu sempre tinha considerado o jogo como dinheiro deitado ao vento, na esperança de que o vento me trouxesse o dobro do que eu tinha lançado. Não é grande a probabilidade de isso acontecer. Em tempos idos tinha jogado póquer, mas quase sempre por divertimento. O mais que se podia ganhar ou perder eram uns cinco ou dez dólares.

“Olhando para os bilhetes do meu amigo ocorreu-me um pensamento. Tinha acabado de ler alguns livros sobre radiestesia e tinha visto na televisão um programa sobre o assunto. Era um indivíduo que andava a detectar minerais, e naquele programa estava a trabalhar para um mineiro, ajudando-o a encontrar bolsas de certos minerais numa velha mina abandonada. Pelo que se viu, o êxito foi completo. O vedor usava um simples cordão com um peso na ponta. Parecia interpretar como sim a rotação para a esquerda e como não a rotação para a direita. Pensei que no fundo o cordão provavelmente não era mais do que uma maneira de a mente subconsciente comunicar com a mente consciente.

“Olhei para o meu amigo e sugeri que talvez uma pessoa pudesse usar a mente subconsciente para ver o futuro e descobrir quem é que ia ganhar o jogo. Ele disse que eu não estava bom da cabeça e que era impossível prever o futuro, dando-me vinte razões para isso. É óbvio que ele é muito mais burro do que eu.

“Mas quanto mais eu pensava nisso mais me agradava a ideia. Quando voltei a casa já tinha a coisa mais ou menos esboçada. Imaginei que tudo o que precisava era descobrir um estado de espírito em que o consciente e o subconsciente se juntassem e funcionassem juntos como se fossem um só, em vez de estarem separados. Parece simples, embora me tenha levado um certo tempo a projectar tudo aquilo. Acabou por se revelar muito simples, excepto que eu iria receber muito mais do que tinha investido.

- O que é que o subconsciente tem de tão importante? – perguntou Danny.

“O subconsciente parece possuir uma enorme quantidade de informação disponível. E também acredito que todas as mentes subconscientes estão interligadas como numa rede gigantesca; mais importante ainda, acredito que o subconsciente também está ligado à nossa alma… essa parte maior de nós mesmos.

“Levou algum tempo a estudar os pormenores e a conceber um plano. Voltei à biblioteca e trouxe mais alguns livros. Andei às voltas com eles uma semana ou duas e experimentei diversas coisas. Aproveitei toda a informação que arranjei e misturei tudo, um bocadinho daqui, um bocadinho de acolá. A conclusão a que cheguei foi que precisava de estar num estado de meditação profunda, ou num estado de espírito semelhante ao transe. Parecia haver um véu que eu estava a tentar atravessar, entre a mente consciente e a mente subconsciente. O maior problema era saber em que havia de me concentrar. A princípio tentei concentrar-me nos resultados dos jogos, mas isso só me fez cair num estado semelhante ao sonho, e os resultados que vi na minha mente não eram correctos. Depois tentei concentrar-me no meu subconsciente, e com isso obtive resultados vários, mas não aquilo que eu pretendia.

“Vou poupar-vos os pormenores de tudo o que experimentei até chegar à conclusão a que cheguei. O essencial é que nós somos muito mais do que apenas mente consciente e mente subconsciente. Cheguei à conclusão de que preciso de estar em contacto com a parte total do que quer que eu seja. E em vez de dizer “tudo aquilo que sou”, decidi utillizar a palavra “alma” para descrever o meu eu total.

“Tinha a certeza de que a chave era ligar-me a essa parte mais ampla de mim mesmo, e deu resultado. E o facto é que resultou tão bem que no espaço de seis semanas já eu tinha ganho mais de 130 vezes.

- Estamos a falar de quanto dinheiro? - perguntou Danny.

Bebi um gole do meu copo. Olhando para Danny, não era difícil ver o brilho dos dólares nos olhos dele.

“A quantia total era menos de dois mil dólares porque eu fazia apostas pequenas. Não ia pegar no pouco dinheiro que tinha e lançá-lo ao vento. Achei também que era melhor manter uma certa moderação, e enquanto resultasse eu podia perfeitamente contentar-me. Nessa altura o dinheiro parecia secundário. Achei que tinha conseguido algo que o mundo inteiro diria ser impossível. Sentia-me literalmente nas nuvens.

- E então a felicidade? – perguntou Neena.

- Acho que ficou um tempo em segundo plano – respondi. – É muito mais fácil ser infeliz num sítio quentinho, debaixo duma palmeira, observando a rebentação das ondas. Ainda não tinha lá chegado, mas era nitidamente uma possibilidade. Olhando agora para trás, eu andava feliz. Passava horas naquilo, mas ao mesmo tempo gostava imenso de o fazer. Mesmo hoje continuo a passar horas sem conta a descobrir coisas que posso fazer com a minha mente. Penso que podem dizer que encontrei a minha vocação. Todavia, mesmo continuando a gostar de o fazer e andando feliz com isso, não é daí que vem a minha felicidade, nem era essa a razão da minha infelicidade. Mas já vamos voltar a este ponto.

- Bom, se vais ficar deprimido, também podes ficar confortável – observou Danny.

“Algo estava a acontecer, sem dúvida. A felicidade começava a borbulhar cá de dentro. E tinha algo a ver com o modo como eu utilizava a minha mente. Mas nesse tempo a única coisa que realmente eu notava era que parecia realmente estar em paz.

- Isso faz sentido – disse Neena. – Precisamos de paz interior para criar felicidade!

- Concordo – disse eu. – Eu andava ocupado e excitado e não queria saber de mais nada. Mas vocês também…

- Isso não importa! – interrompeu Danny. – Preciso das instruções exactas.

Não tinha reparado antes, mas Danny já tinha uma caneta na mão e um bloco de notas na frente. Tinha os olhos esbugalhados e o lábio tremia mais do que nunca.

- Provavelmente é melhor que eu vos conte primeiro o resto da história.

- Eu preferia ouvir o resto – disse Neena.

- Eu preferia ter as instruções agora, senão é provável que as esqueça – contrapôs Danny.

- Bom, eu posso esquecer-me… - disse eu a rir. – Mas tenho a certeza de que vocês não se esquecem de me lembrar.

Neena encolheu os ombros. – A escolha é tua.

Isto pareceu-me muito estranho. Não tinha a certeza se Danny estava a fazer jogo ou se falava a sério. É que há realmente dois tipos de jogadores. Um joga com o universo e o outro envolve-se apenas no jogo. A grande diferença é que aquele que joga com o universo está realmente próximo do que dá as cartas e geralmente sabe em que sentido é que o jogo deverá seguir, e trabalha nesse sentido. Eles sabem também as cartas que cada um tem. Os restantes, como eu, apenas vão jogando. Tinha a certeza que Neena e Danny jogavam o jogo com o universo, mas agora parecia que talvez só Neena o fazia. Talvez então Danny estivesse apenas a jogar como eu. Por vezes o universo parece construir o jogo à medida que ele se desenrola, ou pelo menos é assim que me parece. Não era a primeira vez que eu tinha de lutar para tomar esta decisão: ou pôr as instruções no livro ou falar disso a alguém. Parece que mais uma vez me achava numa encruzilhada. É que não me parecia fazer sentido que o universo deixasse por minha conta uma decisão assim tão importante. Ou deixava?

Resolvi dar as instruções a Danny, mas pensei que talvez fosse boa ideia fazer-lhe primeiro uma pequena prelecção. Para ser franco, era mais para ficar com a certeza de que alcançava o meu próprio objectivo.

- Pois bem, vou dar-te as instruções. Mas quero que saibas que isto pode ser usado para muitas coisas diferentes, e se decidires usar isto para o jogo, tens de carregar nos teus próprios ombros com a responsabilidade do que possa acontecer. Se fores gastar dois dólares num bilhete, é óptimo que possas oferecer a ti mesmo as melhores probabilidades. Mas se vais empatar nisto o teu dinheiro todo, posso já dizer-te que vais perder, e vou explicar-te a razão disso…

- Eu concordo, não há problema – disse ele, como um menino a quem deram um brinquedo novo.

Bebi um gole do meu sumo de laranja e pensei para comigo que de certeza já tinha ouvido antes aquelas palavras.

 

Capitulo Oito

“A primeira coisa que temos de compreender é o factor necessidade. É assim: se você entrar num jogo de póquer com os seus últimos vinte dólares e precisar de ganhar, também pode simplesmente atirar o dinheiro para cima da mesa e ir-se embora, porque se você tem grande necessidade de uma coisa, vai ser difícil consegui-la. A melhor maneira de dizer isto é que temos de estar desapegados dos resultados.

“Danny fechou o bloco de notas e olhou-me com estranheza. – Parece que naquela altura precisavas bastante de dinheiro. Qual é a diferença?

“É que nessa altura eu estava numa fase da minha vida em que, em muitos aspectos, não me importava com nada. Se eu ganhasse, óptimo. E se não ganhasse, que é que tinha? E também sabia do factor necessidade. Era algo que muitos anos antes me tinha custado bastante a aprender. Há realmente uma diferença grande entre querer uma coisa e precisar de uma coisa. A diferença é muito simples: quando queremos realmente uma coisa, temos tendência para pensar nessa coisa e para desencantar maneiras de a conseguir. Mas quando chegamos ao ponto de sentir que precisamos dela desesperadamente, já não vamos conseguir pensar com clareza. Em vez disso, pensamos no que poderá acontecer se não conseguirmos. É como estarmos a olhar numa direcção e caminharmos ou conduzirmos o carro noutra direcção. Não funciona. A mente funciona da mesma maneira. A mente tem de estar concentrada naquilo que pretendemos e não no receio do que poderá acontecer se não o conseguirmos.

- Portanto é como eu ter de fazer uma coisa só por divertimento ou para ter alguma coisa que fazer, como um passatempo – disse Danny.

- Aí está uma maneira perfeita de começar. Dessa maneira não estamos sob pressão e podemos concentrar-nos só naquilo que pretendemos. Se investirmos nisso uma data de massa, ficaremos na dependência dos resultados. Mas se investirmos apenas dois ou três dólares, não tem importância nenhuma, principalmente se íamos mesmo fazer a coisa.

- Tens a certeza que compreendes o que Klaus está a dizer? – perguntou Neena serenamente.

- Sim, não há problema – respondeu ele. – E a seguir?

“A seguir, precisas de um sítio sossegado, um sítio onde ninguém te vai incomodar. Podes deitar-te ou ficar sentado numa cadeira confortável. Eu prefiro deitar-me porque assim não tenho de me preocupar com o descair da cabeça. O único problema com a posição deitada é que pode dar um pouco mais de trabalho para nos mantermos acordados. Depois temos de nos relaxar totalmente e deixar o corpo dormir, mas não a mente. Simplesmente ficar deitado e permitir ao corpo dormir, até ao ponto de já não o sentirmos nem ouvirmos nada. Desligar a audição não é absolutamente necessário, mas ajuda decisivamente e pode fazer a diferença no fim.

- Devo visualizar alguma coisa para que o meu cérebro se mantenha desperto?

- Não! Porque se começares a visualizar cais num estado semelhante ao sonho e a partir daí cais no sono. E se visualizares nesse ponto, é provável que as coisas que vires sejam imaginárias.

- Então o que é que eu faço com a minha mente para me manter acordado?

“Aí é que está o truque. Precisas de te concentrar na tua alma. Eu defino a tua alma como a parte maior do teu eu, ou a totalidade do que tu és, seja isso o que for para ti. O problema é que não podes visualizá-la. Até agora, a melhor maneira que achei de o fazer é fingir que estou a escutar a minha alma. Finjo que estou a tentar ouvir uma coisa que está muito longe e mal se ouve. Experimenta fingir por momentos que estás a tentar escutar o que se passa fora deste bar.

Danny cerrou os olhos e ficou completamente imóvel. Reparei que ele estava a reter a respiração.

- Não, não retenhas a respiração. Faz o que estás a fazer com a mente, mas continua a respirar.

Danny abriu os olhos. – Acho que consigo. A minha mente estava totalmente concentrada, mas não estava a fazer absolutamente nada. Estava perfeitamente vazia.

“Está certo, mas o mais difícil é manter essa concentração sem pensar em mais coisa nenhuma. Não é difícil de conseguir por uns segundos, mas depois a mente tenta criar imagens e pensamentos. Aconteça o que acontecer, não podes envolver-te nesses pensamentos. Se deres por ti a fazer isso ou a envolver-te com as imagens na tua mente, tens de tornar a concentrar a mente na tua alma. Se não te aperceberes que estás a divagar, acabas por entrar num estado de sonho e por cair no sono. Outro ponto importante é a concentração, sim, mas num estado relaxado. Não podes esforçar-te senão não ficas relaxado e ainda acabas com uma dor de cabeça. O que precisas é de estar relaxado mentalmente, fisicamente e emocionalmente, mas ao mesmo tempo concentrado, Parece difícil mas na verdade é perfeitamente natural.

- Porque é que não se pode simplesmente visualizar os resultados na nossa mente? – perguntou Neena.

- Ia precisamente a fazer a mesma pergunta – disse Danny.

- Não sei exactamente porquê. Tudo quanto eu sei é que se começares a visualizar nessa fase inicial, então o que tu vês será de algum modo do estado de sonho, e não será correcto. Não possuo as respostas todas mas penso que precisas de passar ao lado do estado de sonho a fim de alcançar a parte mais elevada da tua mente. É quase como uma bifurcação num caminho: tanto podes virar à esquerda como à direita, sendo a esquerda o estado de sonho e a direita a mente superior. Ao princípio vais ter dificuldade em não virar à esquerda. Fazemos isso naturalmente, mas só porque o fizemos muitas vezes, e para a maioria das pessoas o caminho para a mente superior ou alma não é muito usado. É como seguir um sulco; tem tendência para te arrastar para a esquerda.

- Isso faz sentido. Acho que estou a perceber. Mas o que é que te faz pensar que a minha alma me vai ajudar? – perguntou Danny, duvidoso.

- Aí está uma boa questão, mas eu nunca encarei a coisa dessa maneira. Acredito que estou a aproximar-me e a converter-me na parte mais importante de mim mesmo, e atingindo esse estado tenho acesso a todos os recursos que possuo. Porque é que hás-de usar uma velha calculadora de bolso quando tens no teu gabinete um computador rápido e potente? Se tiveres de tomar decisões importantes, porquê usares essa pequena mente consciente se tens ao teu dispor esse recurso incrível?

“Vê a coisa desta maneira. Sempre que estás a tentar tomar decisões, de certo modo estás a tentar prever o futuro, mesmo que se trate de uma decisão simples como a que horas é que hei-de fazer a sopa. Quando é que as pessoas chegam? A que horas? Quanto tempo é que vai demorar? E por aí adiante. A mente consciente só é capaz de fazer cálculos muito pequenos e lentos, mas a parte maior de ti, o teu subconsciente, tem mais informação disponível e carrega na sua memória todas as lembranças de tudo o que viste, ouviste, cheiraste, sentiste ou experimentaste. Assim, pode usar essa informação para calcular as coisas muito mais rápida e rigorosamente do que a mente consciente. Para te dar um exemplo, a mente subconsciente possui uma memória fotográfica. Tudo o que é visto pelos teus olhos… mesmo que não o vejas conscientemente… fica gravado no subconsciente, e o mais interessante é que todas as mentes subconscientes estão de algum modo ligadas. É como um computador que está ligado a milhares de outros computadores e pode ir buscar a qualquer lado toda a informação de que necessita. Os cientistas ainda hoje debatem o assunto, mas trata-se de um conhecimento que já existe há milhares de anos. Depois vem a mente superior, ou a parte a que chamo a minha alma, e esta parte de mim está para além do tempo e de todas as restrições físicas.

Parei por um momento para dar ocasião a Danny de fazer a sua pergunta, porque ele contorcia-se todo como uma criança que precisa de ir à casa de banho.

- Porque é que te concentras na tua alma se dizes que o subconsciente possui tanta informação disponível?

“Não tenho as respostas todas, mas tenho lido muitos livros ao longo dos anos e gosto de ler nas entrelinhas. Não apareceu ninguém a dizer às claras que experimentou isto, mas acredito que muita gente tentou, e muitos tentaram usar a visualização e falharam. Honestamente só posso conjecturar as razões por que esses dois caminhos não funcionam, mas se passasse o tempo todo a tentar descobrir as razões, nunca chegaria a lado nenhum. Acredito que nós somos mais do que simplesmente mente consciente e mente subconsciente. Penso que muito poucos, se é que alguns, tentaram usar a sua alma.

- Por que pensas isso? – perguntou Neena.

- Tenho mais teorias do que respostas. Mas muitas talvez tenham mais a ver com o medo e a superstição. Acho que tem principalmente a ver com o medo, porque o meu amigo tinha medo de experimentar, apesar de não ser mesmo nada religioso, porque pensava que podia estar a infringir alguma lei cósmica. Ao que parece, isto tem sido um segredo muito bem guardado que só passou para uns poucos mestres.

- Porque é que pensas que eles guardaram segredo? – perguntou ela.

- Ora aí está uma boa pergunta. Também gostaria de saber – disse ele.

- Provavelmente por causa do medo - respondi.

- De que é que esses mestres haviam de ter medo? – perguntou ela.

Danny acenou com a cabeça como quem diz que também tinha a mesma dúvida.

- Provavelmente da treva. Ter conhecimento nem sempre afasta o medo, ter conhecimento não nos faz necessariamente fortes, o bastante para enfrentar tudo o que a vida nos possa impor.

- Não pareces possuir esse conhecimento todo. Então como é que não tens medo de jogar com algo que tem sido ocultado durante séculos? – perguntou Danny.

Ri com a pergunta dele. – Com que é que o universo me poderá ameaçar? Já tentei pôr termo à vida várias vezes. A única coisa que permanece é a imortalidade, que justamente me daria mais tempo para continuar a meter-me em sarilhos. Eu possuo agora algo que é mil vezes mais poderoso do que qualquer coisa que seja sombria e negativa. Porque é que uma parte mais ampla de ti havia de se incomodar por se ligar a isso? Não era isso o que eles tentavam esconder. Era o que tu és capaz de fazer e de alcançar quando te ligas a essa parte mais ampla de ti mesmo. Eu tenho algo de muito mais fascinante do que essa história da lotaria.

- E o que é? – Danny pousou a caneta. O lábio dele tremia agora nitidamente.

Sorri para mim mesmo. – Eu disse-te que escutasses primeiro o resto da história, mas tu insististe. Vais então ter de esperar até eu acabar de te dar as instruções. Mas primeiro preciso de mais sumo de laranja e vou à casa de banho. Depois dou-te o resto das instruções por que ansiavas tão desesperadamente.

Quando me dirigi à casa de banho ainda sorria para mim mesmo. Pensava numa coisa que o meu amigo John costumava dizer-me: Guarda sempre um ás na manga. Podes não chegar a usá-lo, mas mesmo que não tenhas nada vais sentir como se tivesses alguma coisa…


Medo

Os receios de tentar

Vão, no final,

Derramar as lágrimas

Do Amor

Espero bem ter razão acerca deste…”


Capítulo Nove

A casa de banho era extremamente acanhada. Tinha uma sanita e uma divisória com uma pequena porta. Entrei na divisória e fechei a porta. Estava a pensar que talvez não devesse ter mencionado a informação da lotaria. Talvez devesse ter feito segredo. Por outro lado, há tantas coisas benéficas que se podem fazer com essa informação. Ouvi a porta da casa de banho abrir-se e julguei ouvir passos. Quando a porta se fechou, ouvi o que soava como uma voz de ancião.

Disse ele: - Não tenhas receio de dizer o que sabes. Deixa o resto comigo.

- Ah, sim? E quem és tu? – respondi sarcasticamente, pensando que talvez aquilo fosse uma brincadeira de Danny. Abri a porta da divisória à espera de ver Danny ali, mas não havia ninguém. Saí da casa de banho rapidamente e passei revista ao bar: não havia ninguém senão Danny, Neena e o velhote sentado à mesa. Achei que não era possível o velhote ter regressado à mesa tão rapidamente, e ele parecia nem se ter mexido. Danny e Neena encaravam-me fixamente, perguntando a si mesmos por que estaria eu ali. Voltei a sentar-me no meu banco

- Alguém entrou na casa de banho enquanto eu lá estive?

Olharam para mim, olharam um para o outro e abanaram as cabeças.

- Não me parece que aquela coisa da garrafa verde vos tenha dado volta à cabeça, pois não? – perguntei.

- A mim não – Danny abanou a cabeça. – E a ti, Neena?

- Estou óptima – e encolheu os ombros.

- Provavelmente foi o uísque. É coisa que deita abaixo um casal de elefantes. O que é que tu viste? – perguntou Danny.

- Julguei ouvir qualquer coisa, mas não interessa. Voltemos às instruções.

- Boa ideia. – Danny pegou na caneta.

“Ora bem, quando fizerem este exercício podem chegar a um ponto em que começam a ouvir coisas, como palavras ou música, ou simplesmente ruídos. Também podem chegar a um ponto em que se formam imagens na vossa mente, mas não têm que se preocupar com isso. O melhor é deixar simplesmente que isso aconteça e não se deixarem envolver. Essas coisas são apenas ecos na vossa mente. A propósito, são também um óptimo sinal, pois se encontram muito próximos do ponto aonde querem chegar.

Bebi um gole do meu sumo de laranja para dar tempo a Danny para completar as suas notas.

- Então o que são essas visões e esses sons que se ouvem? – perguntou Neena.

- A minha teoria é que a mente, especialmente a mente subconsciente, nunca pára. Acredito que neste ponto estás a contactar a mente subconsciente, mas o importante é continuar, permitindo-te ir cada vez mais fundo, e concentrando-te simplesmente na tua alma, não importando o que ouves ou vês.

- Danny levantou os olhos das suas notas. – Como é que eu sei quando atingi a minha alma?

- É uma boa pergunta. Chega-se lá gradualmente. É uma coisa que se vai intensificando cada vez que se pratica. Mas vais saber quando lá estiveres. Alguns sinais: vais sentir-te muito tranquilo e podes ter a sensação de ser maior. A tua mente ficará também muito límpida. É difícil de explicar, mas uma vez que lá chegues, não há nada que se compare. Podes sentir também que ficaste mais ligado ao universo e ao mesmo tempo separado das preocupações do dia a dia. É a única maneira de o descrever. Julgo que é um pouco diferente de pessoa para pessoa.

Parei por momentos para dar a Danny outra oportunidade de me acompanhar com as suas notas. Aparentemente ele tomava nota palavra por palavra.

- Como é que o Danny vai saber os resultados dos jogos?

- Essa é a parte divertida. Neste ponto tens de fazer algumas opções porque podes fazer uma quantidade de coisas diferentes e fascinantes de que te vou falar mais tarde. Mas se preferes a opção de descobrir os resultados dos jogos, pois assim seja. Ora bem: tudo o que eu te disse até aqui tem de ser seguido exactamente. Este caminho é muito estreito e precisas de permanecer concentrado.

- Estou pronto! – Danny sorriu.

“Muito bem. Chegados a este ponto, podes começar a visualizar. O que eu gosto de fazer é fingir que estou a avançar no tempo e a posicionar-me à esquina da loja de bebidas. Imagino então que estou a entrar na loja na direcção do balcão da lotaria e olho directamente para as folhas que têm os resultados dos jogos. Originalmente fingia que ia de comboio e que cada cidade que passava representava um dia no futuro. Quando chegava ao dia em que queria estar, o comboio parava, eu descia, dirigia-me a uma banca de jornais e via os resultados no jornal diário. Mas achei que por vezes usava demais a minha imaginação. Mais tarde percebi que era porque eu tentava tornar o comboio demasiado real, em vez de ter a sensação de ir num comboio.

“Uma parte da coisa será imaginação tua; não há outra hipótese. A maneira melhor que descobri é imaginar a loja ou o comboio, à tua escolha, mas imaginá-los muito ligeiramente, para que não se torne a tua realidade mas sim uma forma de medires o tempo. Mas quando olhares para os resultados tens de visualizar muito claramente; mas usa a imaginação o menos possível. Não deves fazer isso durante um período muito longo. Também fui muito bem sucedido pedindo simplesmente à minha alma que pusesse as respostas na minha mente. De tal maneira que eu via como se estivesse a olhar para uma tela onde as respostas estavam projectadas. É uma questão de se experimentarem diversas maneiras e descobrir qual a que funciona melhor para nós. Se as respostas estiverem incorrectas, não é que a tua alma te esteja a dar respostas erradas mas sim que não estás a receber a informação correctamente.

- Quanto tempo demoraste a conseguir isso? – perguntou ele.

- Uns dez dias.

- Não está mal – disse ele.

“Tens de ter em conta que nesse tempo eu não estava a trabalhar e passava quase os dias inteiros a trabalhar nisto. Há também outros pormenores que precisas de saber. Nem todas as respostas que receberes serão correctas, por várias razões. O futuro não está gravado em pedra e pode mudar em qualquer momento. Assim, eu tentava obter a informação relativa a 6-10 jogos diferentes. Depois olhava para essas respostas e comparava-as com o que devia ter feito. Depois seleccionava dois ou três jogos e apostava. Às vezes, se achava que estava a ter um dia bom e a informação era muito clara, jogava em mais jogos, mas só quando me parecia razoável. As minhas apostas eram muito modestas e fazia combinações. Digamos que tinha dez jogos. Podia fazer três ou quatro conjuntos com três ou quatro jogos em cada conjunto. Dessa maneira, se houvesse um engano, os ganhos sempre cobririam as perdas.

- Parece muito simples, mas estou a ver que isso dá um bocado de trabalho. E isso é tudo o que há sobre o assunto? – perguntou ele.

- É! – respondi. – Bem, talvez só mais uma coisa: toma atenção ao que parece ser a sorte do principiante!

- O que é que isso quer dizer?

- Tu verás.

- Ei, isso não é…

- Estou a ver – disse Neena, endireitando-se no banco. – Oh, meu Deus, isso é… Uau, quase me escapava! Não estás a perceber, Danny?

- Espera lá! Se uma pessoa não percebe é porque não está preparada. Mas não há que falar nisso.

Ela pôs a mão sobre a boca e sorriu. – Está calado.

- Não tem graça. – Danny saltou do banco e pegou nas suas notas.

O meu sorriso era tão rasgado que quase sentia os lábios tocarem nas orelhas.

Ele ergueu os olhos para mim. – Quem é que pensas que és? O que dá as cartas?

Tentando controlar o meu sorriso, pensei com os meus botões: Não sou o que dá as cartas, mas sei quando é que tenho mais de uma carta. Quando jogas com o universo da maneira certa, ou seja com respeito, Amor e benevolência, o universo continua a dar-te mais cartas. Ouvi dizer que quando recebemos um baralho inteiro, o universo pode deixar-nos dar algumas cartas. Isso é mais responsabilidade do que a que me interessa, e imagino que para receber muitas cartas uma pessoa teria de ser muito dedicada para fazer a diferença neste mundo. Suponho que alguém como a Madre Teresa deve ter tido uns poucos de baralhos. É difícil dizer. Tudo o que eu sei ao certo é que três ou quatro cartas podem proporcionar-te um caminho longo.


Criança interior

Nunca reparaste

Que em cada

Corpo de adulto

Há uma criança

Que forceja

Por vir cá para fora?

Talvez tenhamos de as deixar sair

Antes que dêem cabo de tudo.


Capítulo Dez

Danny estava totalmente a leste do pequeno segredo que Neena e eu guardávamos. Disse-lhe que havia ainda uma série de pistas no resto da história, o que pareceu aplacá-lo de momento. Não é exactamente um segredo. É uma daquelas coisas que, quando são postas em palavras, ficam moldadas na nossa mente, e no momento em que se forma o molde deixam de ser o que eram. Há coisas no universo que não podem ser postas em palavras. Fazendo-o, destruímo-las por momentos, e de certo modo acabamos por dar ao nosso interlocutor algo totalmente inútil. O maior problema é que as pessoas a quem tentamos dizê-las as moldam em formas estereotipadas, e mais tarde, quando chegam a ver essa informação na sua verdadeira forma, automaticamente tornam a encaixá-las no molde, e assim a informação perde-se.

Olhei para Danny. – Antes de continuar com a história devia talvez dizer-te uma coisa que reparei agora que não mencionei.

- Mas que surpresa! – Danny fez um sorriso sarcástico.

“Mas é de facto uma coisa muito importante, especialmente se tiveres dificuldade em manter a atenção focalizada na tua alma. Tenho lido, ao longo dos anos, uma série de livros sobre meditação no Oriente, e muitos deles referem várias áreas da mente em que se pode meditar, mas nenhum deles menciona o cérebro. É qualquer coisa como isto: não gosto de entrar numa cave escura mesmo que haja uma luz acesa, porque há muitos recantos escuros onde se podem esconder os monstros da cave. Descobri que a melhor maneira de lidar com uma cave escura é colocar uma lâmpada na parte mais escura. O cérebro funciona de modo muito semelhante.

Por alguma razão, Neena achou isto muito divertido.

“Quando estás a tentar concentrar-te na tua alma, de certo modo estás a usar o que alguns yoguis chamam a mente superior. Mas há uma parte da tua mente que tenta trazer outros pensamentos. É uma dificuldade com que sempre me deparei. A questão era: que parte da mente é que fazia isto? Passei então em revista todas as partes da mente que os livros referem. Gosto sempre de procurar coisas estranhas, coisas que realmente não são normais mas parecem absolutamente normais ou demasiado normais.

- Que queres dizer? – perguntou ela, cheia de curiosidade.

- Dá uma olhadela pelos escritos orientais de yoguis ou de mestres. Se lhes fizeres uma pergunta, dão-te uma resposta muito curta, mas se lhes deres uma caneta e papel, eles escrevem até vir a mulher da fava rica. Bastante contraditório, não acham?

- Achas que isso tem algum significado? - perguntou Danny.

Acenei com a cabeça. “Se é assim, alguma coisa significa. Que vos parece o facto de terem todos os mesmos padrões de escrita mesmo sendo de raças e países diferentes? Penso muito no facto de eles terem escrito centenas e centenas de páginas e dizerem pouco mais que nada. Eles escrevem tudo e tornam a escrever e é tudo a mesma coisa, variando apenas o ângulo, o modo de abordar as questões. Vamos lá ver: certamente eles escrevem nalguma forma de código, e se todos eles conhecem o código, não pode ser muito difícil decifrá-lo. Quando uma pessoa consegue escrever dez livros sem dizer nada, é fascinante, porque nesse caso deve escrever nas entrelinhas. Por isso eu olho para lugares para onde eles nos dizem que não vale a pena olhar, e trabalho em lugares que eles nunca mencionam…

“Afinal, se tivermos um tesouro e quisermos falar dele a alguém mas não quisermos que saibam onde está ou exactamente como lá chegar, a menos que queiram vir atrás de nós, temos de tecer um verdadeiro labirinto.

“O problema que se me deparou é que não consegues alcançar a tua alma, ou essa parte mais ampla de ti mesmo, a menos que impeças a tua mente de cacarejar como uma galinha que acabou de pôr um ovo. E a chave para isso é a única coisa que eles parecem omitir. Desliga a mente, e tens o problema resolvido.

Por momentos senti-me orgulhoso de mim mesmo. Depois reparei que parecia o galo da quinta empoleirado numa vedação, cacarejando vaidoso para o frango ao lado. Detesto quando isso acontece.

- Deves realmente sentir-te orgulhoso de ti mesmo por teres aprendido tudo isso – disse ela, carregando um pouco mais na ferida…

- Já experimentei a meditação e tive problemas com os pensamentos que se intrometiam. Como é que posso desligá-los? - perguntou ele.

“Aí é que está o busílis. Primeiro tens de ficar totalmente relaxado e calmo. Depois, só por um minuto, visualizas um raio de luz que vem da tua alma e desce do cimo da tua cabeça, enchendo toda a área de uma luz muito brilhante. Não prolongues a visualização, deixa-a somente ficar como pano de fundo da mente. É como se estivesse um carpinteiro a reparar-nos o telhado; não precisamos de passar o dia todo ao pé dele a observá-lo; simplesmente sabemos que ele está lá. Em poucas palavras, deixa a luz lá ficar sem te concentrares nela constantemente. Isso vai manter toda essa zona muito ocupada. Não sei exactamente qual é a função desta área do cérebro, mas sei que isto resulta, e isso é o que realmente importa.

- Danny, fala ao Klaus dos monstros da cave. – Neena mudou de assunto.

Ele abanou a cabeça. Tinha no rosto uma expressão de medo.

Neena inclinou-se para mim. – Temos aqui uma cave, mas Danny não vai lá porque pensa que há monstros lá em baixo. Queres dar uma olhadela?

- Não me parece… Se Danny diz que há monstros na cave, isso é suficiente para mim.

Ela riu. – Vocês, homens, são todos iguais! Fazem imenso espalhafato, mas quando o lobo aparece, ninguém vos encontra.

Decidi deixar passar o comentário e pensei onde é que tinha ficado antes de a conversa ser desviada.


Segredos do Universo

O pensamento-chave, Confiança

A acção decisiva, Amor

O resultado, Júbilo

O jogo

Continuação.


Capítulo Onze

“Naquelas seis semanas tinham começado a acontecer coisas estranhas. Como não era capaz de explicá-las, limitei-me a assumir que a minha ignorância tinha aumentado e eu estava a ficar mais sensível ao que se passava à minha volta. Na verdade não me agradava enfrentar certas coisas que se passavam, por isso pensei que a melhor coisa a fazer era simplesmente ignorá-las.

“As coisas começaram lentamente. Primeiro senti como se estivesse a ser observado. Vocês sabem como é; é como se alguém estivesse a olhar para nós. Sentia isso principalmente à noite, e então passei a deixar as luzes acesas. O que começou a acontecer a seguir foi também à noite. Estava na sala de estar com o meu cão, o Rudy, e às vezes ele levantava-se subitamente, orelhas apontadas para diante, de olhos fixos no centro da sala como se estivesse a ver alguma coisa. Fez isto muitas vezes naquelas semanas. Nunca vi nem ouvi coisa nenhuma, mas por vezes sentia nitidamente que estava a ser observado. O mais interessante é que quando Rudy decidia sair da sala, contornava a área onde fixava o olhar, embora atravessar a sala fosse o percurso que normalmente faria.

“Outra coisa que começou a acontecer é que as coisas mudavam de sítio. Por exemplo, eu punha uma coisa em determinado sítio, talvez um copo ou um livro, e mais tarde ele aparecia noutro sítio. Eu tentava dizer a mim mesmo que não prestava atenção ao que fazia, mas no fundo sabia que não era esse o problema. Vivo com muita simplicidade e muito poucas coisas, e as coisas que tenho estão sempre no sítio devido. Uma tarde deitei-me para a minha meditação, a fim de escolher as apostas, mas tinha-me esquecido de ligar o aquecimento. Quando entro em meditação profunda a temperatura do meu corpo tende a descer bastante. Já tinha começado a relaxar-me quando comecei a sentir-me arrefecer. Não quis tornar a levantar-me e ter de começar tudo outra vez. Ouvi então a caldeira de aquecimento ligar e pensei que talvez tivesse ligado o termóstato; e continuei a meditação. Quando terminei, a casa estava extremamente quente. Levantei-me para ir desligar o termóstato, mas reparei que não chegara a ligá-lo. Estava mesmo abaixo dos 20 graus mas a temperatura do quarto atingira os 28 graus. E enquanto eu olhava para o termóstato ouvi a caldeira desligar.

“Nessas seis semanas tive também vários sonhos muito estranhos. Em dois deles lembro-me de ter falado com um anjo, mas nunca consegui lembrar-me totalmente do sonho nem do que foi dito. Sonhei também algumas vezes que estava a lutar de espada em punho, mas não recordo os pormenores. Normalmente, se este tipo de coisas estivesse a acontecer, ter-me-ia fascinado, mas o que eu queria era concentrar-me nos resultados desportivos correctos.

“E é neste ponto que as coisas começam a tomar um novo rumo. Por alturas da última semana estava a sentir dificuldade em ver os resultados. Via a página mas era difícil ver os resultados. Era quase como se alguém estivesse a pôr o dedo sobre as respostas. À medida que eu movia a minha percepção de uma página para outra, havia uma zona escura que ia atrás. Eu continuava a conseguir, mas aquilo exigia uma quantidade enorme de tempo e concentração. Pensei que talvez fossem as minhas próprias dúvidas a interferir, o que não é invulgar. Dia após dia, aquilo ia-se tornando cada vez mais difícil e exigia cada vez mais esforço. Não ia permitir que um problemazito como aquele arruinasse a minha proeza. Pensei que ao longo das semanas me tornara preguiçoso e não aprofundava suficientemente a minha meditação. Assim, de cada vez que começava a meditar fazia um grande esforço para ir mais fundo. Foi então que comprei uns tampões para os ouvidos… daquele tipo que usam os operários da construção civil quando trabalham com maquinaria ruidosa. Os tampões fizeram uma diferença muito grande na minha capacidade de concentração. Tinha comprado também uma mascarilha para colocar sobre os olhos. Com a mascarilha e os tampões conseguia chegar muito mais fundo sem ser incomodado. Ainda hoje me sirvo deles, porque se alguém bater com uma porta ou deixar cair algum objecto, não sou bruscamente arrancado ao estado de espírito em que estiver.

- No dia 6 de Novembro… – parei para puxar uma fumaça – foi nesse dia que a coisa rebentou. Não sou cego. Vi a coisa chegar, só que não estava à espera.

Pela cara de Danny percebi que isto estava a deixá-lo nervoso.

- Sabes que mais? Lembrei-me agora de uma coisa que me esqueci de contar! É uma peça importante do puzzle. Acho que é uma das chaves principais.

- Estás a regular bem? – perguntou Danny. – Vais deixar-nos assim em suspenso?

Ela riu. – Dá-lhe mais um pedaço do bolo que isso vai manter os lábios dele a tremer.

- Dêem-me só mais um minuto, que isto é mesmo importante – disse eu, sabendo perfeitamente que Danny estava irritado, provavelmente por pensar que aquilo tinha algo a ver com a lotaria e que provavelmente significava que ele não seria capaz de experimentar.

Levantou-se do banco, pegou num copo, atirou-lhe para dentro um pedaço de gelo, pegou na garrafa e encheu o copo até acima.

Ela riu.

Pôs o copo à minha frente, e ao lado a garrafa aberta.

- Ora bem! Vamos então ver esses lábios a tremer! – Ele tornou a sentar-se no banco.

Pensei com os meus botões: não sei que jogo é que o universo está a jogar agora, mas hei-de descobrir antes de se acabar a noite. Espreitei por cima do ombro para ver se o homem sentado à mesa ainda lá estava. Estava. Não se tinha movido nem um centímetro nem ninguém tinha tentado servi-lo. Muito estranho. Hesitei em dizer qualquer coisa mas decidi que talvez fosse melhor não mexer no assunto e ver o que acontecia.

Voltei-me para Neena. – Cerca de três semanas depois de conseguir ganhar a lotaria pela primeira vez, imaginei que seria boa ideia tentar viajar pelo futuro para ver o que andava a fazer o meu futuro eu. Pensei que, se podia viajar pelo futuro para ver os resultados desportivos, nesse caso também seria capaz de viajar no futuro e ver como é que a minha vida ia evoluir. Foi à terceira ou quarta tentativa, não me lembro exactamente, mas o facto é que consegui.

“Reparei que, quando tento ver o futuro, a imagem leva um tempito a formar-se por completo minha mente. A princípio, o que eu vi parecia ser eu mesmo sentado numa cadeira de lona em frente duma fogueira. A seguir formaram-se umas árvores, relva e outras coisas. A princípio pensei que estava num bosque. Mas depois apareceu uma cabana, ou uma casa de veraneio, cinco ou dez metros atrás dele. Estava eu a olhar directamente para o meu futuro eu quando reparei que ele tinha o olhar fixo em mim, e ao mesmo tempo vi que havia um anjo sentado numa outra cadeira ao lado dele. Tentei clarificar a visão eliminando qualquer coisa que pudesse ser provocada pela minha imaginação. Ao mesmo tempo que tentava clarificar a minha percepção, o meu futuro eu apontou para mim, olhou para o anjo, tornou a olhar para mim e disse: Não posso acreditar! Finalmente ele conseguiu! E começaram ambos a rir a bandeiras despregadas.

“Por alguma razão não consegui aguentar-me ali e fui instantaneamente puxado de regresso ao meu estado normal de vigília. Sentei-me na cama e matutei naquilo algum tempo. Decidi que porventura tinha imaginado aquilo tudo, ou pelo menos uma parte. Resolvi tentar de novo noutra altura, mas nunca surgiu oportunidade.


O “Joker”

Chamo-lhe o “Joker”, embora não se trate de piada1 nenhuma. Por essa razão é que eu nunca quis jogar o jogo. Descobri o jogo quando era ainda muito novo, e na mesma altura percebi que tinha uma dessas cartas. Isto pode ser um problema real, principalmente se não o entendemos. Tenho visto muita gente com esta carta e constatado os problemas que ela pode causar. Uma das consequências mais importantes da posse desta carta é que não temos alternativa. Se o universo nos dá uma, nada a fazer. Não se pode deitar fora. Não podemos fugir, não podemos esconder-nos, não há maneira de o evitar. Acredito que existe uma possibilidade, mas é gerada pelo nosso eu superior, e uma vez que essa decisão seja tomada, não se pode voltar atrás. Esta carta pode significar coisas diferentes de pessoa para pessoa, mas geralmente é uma carta que joga connosco. Não somos nós que a jogamos. Estarão provavelmente a perguntar-me o que faz esta carta. Se temos uma destas cartas, de uma maneira ou doutra vamos ser impelidos a fazer algo nesta vida que vai fazer a diferença. Infelizmente não posso especificar.

Há muitos anos procurei uma pessoa muito dotada para me ajudar. Perguntei-lhe: - Que é que se passa com a minha vida? Tento caminhar numa determinada direcção e parece que o universo me empurra para uma direcção diferente. Como é que hei-de me opor?

Ela disse: - Tu possuis uma carta e sabes disso, mas optaste por resistir e vais perder! Não posso fazer nada por ti.

Fiquei furioso e respondi: - Hei-de lutar até ao fim. Vou resistir e vou vencer.

Quando me dirigia para saída ouvi-a dizer: - Vais perder.

É provável que perguntem por que há-de uma pessoa querer combater esta carta. Para ser franco, muito poucas são as pessoas que possuem esta carta e não lutam contra ela. Porquê? Porque esta carta arrasta-nos para caminhos que parecem totalmente ilógicos, e somos empurrados para direcções que não fazem qualquer sentido. Esta carta não é um mapa; tudo quanto se vê é um passo. Ela desafia-nos a fé até ao limite absoluto, e mesmo para além. Porquê? Levar-me-ia muito tempo a explicar, e não tenho a certeza de que a minha teoria esteja certa. Posso dar-vos uma pista: depois de acabarem de ler este livro, reparem em como tudo se desenrolou e verão muito facilmente que este livro é a minha carta e o jogo não acabou.

Como é que sabemos se possuímos uma destas cartas? Eis algumas pistas:

Primeira: você pode sentir que, de algum modo, devia fazer algo mais útil com a sua vida, ou que há algo mais importante para si do que simplesmente viver o dia a dia, mas não faz ideia nenhuma do que possa ser.

Segunda: pode ter uma sensação de urgência de fazer qualquer coisa, mas não ter pista nenhuma sobre o que há-de fazer.

Terceira: você pode de algum modo ser impelido em certas direcções, e se tenta seguir numa direcção diferente, parece que cai o céu e a terra.

Quarta: pode sentir que anda numa ânsia ou numa busca constante de qualquer coisa, mas não tem a certeza do que é.

Esperem agora um momento e fiquem em silêncio. Pensem. Possuem uma destas cartas?

Poupem-se a agonia de tentar combatê-la.

Já estive nessa. Já o fiz. Não me agradou.

PS: Também pode ser que esta carta venha atrasada. Por outras palavras, ela cá está, mas ainda não produziu todos os efeitos, mas eles são sentidos pela pessoa que possui a carta.


O que dá as cartas

Os jogadores

Os escritores

Os leitores

Estão todos em jogo


Capítulo Doze

- Antes de vos contar o resto – disse eu – vocês têm de compreender que em 6 de Novembro toda a minha vida ficou voltada de pernas para o ar. Embora eu me lembre praticamente de tudo, algumas coisas podem não vir exactamente na ordem em que aconteceram.

- Ele está a ganhar tempo, ou estou enganado? – perguntou Danny a Neena.

- Oh, ele está a ganhar tempo, muito tempo –respondeu ela.

- Não, não é nada disso – disse eu – Estou simplesmente a tentar coordenar ideias. Não quero que haja mal-entendidos.

Ficaram em silêncio, com os olhos fixos em mim. Quase parecia que me queriam fazer sentir culpado. Um calafrio estranho subiu-me pela espinha e saiu pelo alto da cabeça. Tive a estranha impressão de que talvez estivesse a forçar a minha sorte.

“Geralmente vou à loja de manhã muito cedo buscar os resultados e a lista de quem vai jogar nesse dia. Mas tinha adormecido depois de uma noite muito agitada. E também, por alguma razão, não me apetecia fazer aquilo naquele dia. Havia algo errado comigo. Após o almoço levei Rudy a passear e no regresso do parque parámos na loja para ver a informação desportiva. Ainda tinha montes de tempo porque as apostas não precisam de ser entregues antes das 5 ou 6 da tarde. Depois de uma longa caminhada calha mesmo bem uma meditação profunda. Assim, logo que chegámos a casa fui para o meu quarto deitar-me. Costumo ter a lista numa mão para a poder estudar antes de fechar os olhos. Do meu lado direito tenho uma caneta e um bloco de notas para poder assentar os resultados sem ter de me levantar. Tinha a mascarilha de dormir e os tampões dos ouvidos, pelo que não seria fácil ser incomodado. Lá estava eu, pois, deitado na cama, relaxando-me lentamente mas cada vez mais. Por causa da dificuldade que tinha experimentado nas duas semanas anteriores, todo este processo demorou pelo menos umas duas horas. Estava precisamente a chegar ao ponto em que o meu corpo começa a ficar dormente quando ouvi o que parecia alguém a clarear a garganta. Pensando que seria o Rudy, continuei. Minutos depois houve um baque surdo debaixo da minha cama. Ruídos surdos deste tipo normalmente fazem-me voltar ao meu estado normal de vigília, o que significa que tive de recomeçar tudo do princípio. Desta vez pensei que seria apenas o suporte de madeira onde assenta o colchão. Às vezes, quando tenho dificuldade em me relaxar ou em iniciar o processo, faço uma contagem mental de 100 até 1, o que me ajuda a relaxar em ocasiões em que a minha mente não está para aí virada. Comecei a contar lentamente e logo aos primeiros números podia jurar que alguém contava comigo. Quase conseguia ouvir o que parecia uma voz fraca que pronunciava os números exactamente ao mesmo tempo que eu. Pensei que talvez estivesse a imaginar coisas e resolvi suprimir a parte da contagem e simplesmente ficar ali deitado à espera que o corpo adormecesse. O meu corpo estava precisamente à beira de adormecer, no ponto em que toda a sensibilidade física e auditiva desaparece, quando alguma coisa bateu na cama com tal força que a fez abanar. Pensei que algum amigo meu tinha entrado e abanara a cama para me acordar. Tirei a mascarilha e abri os olhos. Mas o que vi não foi um amigo meu. Na verdade, não podia acreditar no que via. O meu coração batia tanto que julguei que ia abrir um buraco no peito.

“O que eu tinha na minha frente era um anjo, um anjo grande, com mais de dois metros de altura. Sacudindo-se todo, disse qualquer coisa como isto: Hei! Nunca limpas o pó aqui em baixo? Olha, moço, estou a falar de grandes problemas de pó.

“Ainda com os tampões nos ouvidos, não podia ouvir-lhe a voz, mas ouvi o que ele disse na minha cabeça, alto e bom som.

Fiz uma pausa momentânea para tirar do maço mais um cigarro. Neena e Danny pareciam como congelados no tempo. Pela expressão no rosto de Danny deduzi que ele pensava que o anjo me ia rachar ao meio. Acendi o cigarro.

Não é esse o tipo de linguagem que esperava ouvir de um anjo – disse eu. O meu corpo estava gelado mas o coração e a mente corriam a cem à hora. Não sei quanto tempo ficámos a olhar um para o outro. Ele sorria, mas eu creio que não. Os pensamentos rodopiavam-me na cabeça. Pensei que aquilo não podia ser real. Talvez ele esteja aqui para me dar um raspanete, talvez porque eu não deva andar a usar esta coisa de yoguis para ganhar a lotaria. Talvez o universo tenha perdido a paciência comigo. Talvez o universo tenha enviado este anjo para me pôr na linha. O meu corpo começou a tremer todo. Já me assustei muitas vezes, mas nunca daquela maneira. Pensei que talvez pudesse saltar da janela abaixo, mas achei que não servia de nada. Ele estava demasiado perto da porta para que eu pudesse alcançá-la. Uma parte de mim gritava: Tens de sair daqui para fora, tens de sair!

“Joga também – disse para mim mesmo. – Isso mesmo. Joga também com ele. Tu consegues desenvencilhar-te disto. Diz-lhe olá e joga com calma.

“O facto é que consegui pronunciar uma palavra: olá.

“Ele inclinou-se para mim. – Bom, o que é que tu sabes? Ele fala! Tchhhh, descontrai-te! Acho que os olhos te vão saltar das órbitas. Precisamente quando começava a sentir-me à vontade, ele gritou: Bu!

“Algo no meu corpo estalou.

Os rostos deles estavam imobilizados.

“O anjo sorriu. – Bom, agora que já voltaste a respirar, por que não sentarmo-nos e termos uma conversa agradável?

“Era isso mesmo. Reuni forças e de um salto lancei-me para cima dele. Se a coisa não vai com palavras, vamos à luta. De cabeça baixa, passei mesmo através dele, na direcção da parede.

Parei para beb